quinta-feira, 10 de julho de 2014

Dieta no ouvir

Considero que é indiscutível que vivemos imersos num mar de ruídos, sons e palavras que nos deixam insensíveis para escutar a Palavra que sussurra no quotidiano mais singelo. Este dado ganha mais densidade, quando se considera o facto de que a palavra de Deus se torna acessível à fé através do “sinal” de palavras e gestos humanos, do quotidiano. A fé reconhece o Verbo de Deus, acolhendo os gestos e as palavras com que Ele mesmo se nos apresenta. Portanto, o horizonte sacramental da revelação indica a modalidade histórico-salvífica com que o Verbo de Deus entra no tempo e no espaço de cada pessoa, tornando-Se interlocutor de cada um de nós, chamados a acolher na fé o seu dom (Cf. VD 56). E este dom é percebido, saboreado e acolhido no hoje de cada pessoa.
É por isso que se não é por falarem muito que são ouvidos (Cf. Mt 6, 7), também não é por ouvir muito que assumem a fé. Mas sim por ouvir bem (Cf. Sl 115), da Fonte segura e não dos ídolos.


Também aqui, «não nos é pedido que sejamos imaculados, mas que não cessemos de melhorar, vivamos o desejo profundo de progredir no caminho do Evangelho, e não deixemos cair os braços. (...) Todavia, se não se detém com sincera abertura a escutar esta Palavra, se não deixa que a mesma toque a sua vida, que o interpele, exorte, mobilize, se não dedica tempo para rezar com esta Palavra, então na realidade será um falso profeta, um embusteiro ou um charlatão vazio» (EG 151).
E passou ao lado da Fonte da água viva...

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Igreja, Mãe dos pequeninhos

A Igreja, que se diz Mãe e Mestra, há de ter em cada um do seus membros um ícone deste acolhimento incondicional, sobretudo dos mais pequenos.  A partir daqui percebe-se que, tal como «o amor que reina numa família guia tanto a mãe como o filho nos seus diálogos, nos quais se ensina e aprende, se corrige e valoriza o que é bom»(EG), assim também o diálogo da e na Igreja deve mostrar e “deixar tocar” o Mistério que a habita.
Todos gostamos de estar em ambientes “familiares”, que nos falem com expressões do nosso idioma materno. Quando assim acontece, ouvimos melhor e, melhor ainda, é uma linguagem que transmite coragem, inspiração e força.

Não causa espanto que muitos fiéis não percebam a “linguagem” da Igreja? Não causa estranheza que se apreciem “pregadores” que usam linguagens tão afastadas do comum dos fiéis que acabam por ser interessantes, porque exotéricas?
Reparemos como Jesus falava e de que falava: falava do amor de Deus, mostrando-o em gestos concretos, na vida dos seus ouvintes. O “sucesso” de Jesus vinha-lhe do modo como olhava o Seu povo, muito para além das suas fraquezas e quedas. Incutia coragem e esperança: «Não temais, pequenino rebanho, porque aprouve ao vosso Pai dar-vos o Reino» (Lc 12, 32). Quando Jesus fala, os seus ouvintes ficam cheios da alegria do Espírito.