quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Advento, tempo de nevoeiro! - Mensagem para o Advento


1. Diz-nos um teólogo jesuíta que o desânimo é como que um nevoeiro cerrado. E uma vez debaixo do nevoeiro, todo o cuidado é pouco: é preciso andar devagar, estar atento a todos os sinais e ter a convicção de que estamos na direção certa. E não adianta protestar: pois só com a paciência de saber esperar o raio de luz no caminho, se pode ultrapassar esse nevoeiro.
Partindo desta imagem, o Advento surge para nós como um tempo de nevoeiro. Um tempo cuja única certeza é a promessa da vinda do Filho de Deus ao mundo, para acabar com todas as nossas dúvidas e restituir-nos a alegria. Por isso, importa estarmos atentos a todos os sinais que advêm da Liturgia da Palavra e da iconografia adventícia, para caminharmos com segurança.


2. Ao olharmos o plano pastoral da Arquidiocese, que faz a ponte entre a fé professada e a fé celebrada, notamos como a liturgia oferece estabilidade a este caminho, uma vez que detém duas finalidades: celebrar a glória de Deus e acolher a sua salvação, efectivada na noite de Natal.
Nesse sentido, o Papa Francisco, no nº 19 da Lumen Fidei, não podia ser mais claro: "O início da salvação é a abertura a algo que nos antecede, a um dom originário que sustenta a vida e a guarda na existência." Logo, "a liturgia não é um tranquilizante que nos permite viver sem nenhum esforço de conversão individual e colectiva ou como evasão dos nossos compromissos. Não pode ser uma rotina que não transforma a vida nem a comunidade cristã. Isto seria empobrecer e perverter o conteúdo real da ação litúrgica."[1]

3. A vivência deste tempo pode ser enriquecido com inúmeros subsídios pastorais já disponíveis em diversas plataformas. E desse modo, gostaria apenas de deixar-vos quatro perguntas, a reflectir durante este tempo de nevoeiro e de procura (Advento): temos consciência de que a liturgia é uma ação onde damos glória a Deus e recebemos a sua salvação? A liturgia nutre a vida da comunidade, que é chamada a crescer na comunhão e na caridade? Há de facto uma estreita relação entre a celebração e a ação evangelizadora? Já compreendemos o significado profundo deste tempo do Ano Litúrgico?

4. Por último, o maior perigo que a actual crise nos pode causar, mais do que o empobrecimento e o medo, é destruir-nos a esperança. Sem fé não há esperança! E sem esperança, o Advento será somente mais um tempo de nevoeiro sem rumo no caminho. Precisamos talvez de deixar que a fé nos transforme, de cultivar um estilo de vida paciente e de participar na liturgia com um outro sabor. Só assim é que a fé celebrada será uma autêntica luz que fará do Advento um tempo de esperança e de alegria!
É verdade que a sociedade educou-nos para ter tudo sob controlo, mas por vezes há nevoeiros na vida pessoal e social que surgem inesperadamente. Só que a cada imprevisto, Deus responde sempre com uma surpresa, porque a Ele “nada é impossível”! E há um caminho que nunca devemos ignorar neste tempo de crise: o caminho da fraternidade, pois é no rosto do outro que Deus vem ao nosso encontro, nomeadamente nos mais carenciados e desprotegidos.

Na certeza de que Deus nunca falha nas suas promessas, desejo uma boa caminhada de Advento para todos vós, convictos de que, a este tempo de nevoeiro, virá um dia de sol radioso (Natal)!

† Jorge Ortiga, A.P.
21 de novembro de 2013.





[1] Cf. Programa Pastoral da Arquidiocese de Braga 2013-14, 13.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Quid Est Ergo Tempus?: A dívida individual como base de um investimento c...

Um olhar para o distante início da monetarização

"Se um dos teus irmãos empobrecer, e não satisfizer as suas obrigações para contigo, protegê-lo-ás, mesmo que seja um estrangeiro ou um inquilino, e deixa-o viver contigo. Não receberás dele juros nem lucro algum, mas teme o teu Deus para que o teu irmão viva contigo. Não lhe emprestes o teu dinheiro com juros, nem lhe dês os teus mantimentos para disso tirar proveito."
Levítico (25, 35)

Há, por vezes, uma sabedoria que rasga os tempos e irrompe na nossa mente como um trovão que nos remete para as forças ancestrais da natureza. Alguns dos textos mais antigos da humanidade têm esse condão, o de nos despertar para o essencial, subtraindo-nos ao supérfluo. Quando nos parece que andamos enredados em soluções fast-food que nada nos trazem de novo, há sempre uma lufada de ar fresco numa esquina a que nos propúnhamos passar.
Uma dessas esquinas ou encruzilhadas civilizacionais encontra-se no mapa da Bíblia, num inesperado texto de carácter muito formal. Esse texto, muito ligado ao legalismo, portanto, aparentemente pouco rico em aspectos de humanismo, é o Levítico. Seja-se crente, ou não, nos tempos que correm, este texto está repleto de boas práticas económicas vindas dos primeiros séculos de monetarização da economia.
Na mentalidade antiga, o lucro era um resultado que espelhava uma relação com o divino. Temia-se o deus que possibilitava a riqueza. A forma como se geria essa riqueza dada ou possibilitada pelo deus era imagem do que essa mesma divindade poderia pedir em contas num juízo final.
Pela prática apontada pelo Levítico, se uma das partes contratuantes não consegue cumprir o estipulado, em vez de se exigir o pagamento, levando a uma ainda mais profunda e irreversível falência, criam-se as condições para uma evolução financeira que possibilite a retoma da actividade e um futuro pagamento, diríamos nós, sustentado.
A cobrança de dívida é, desta forma, travada nos momentos limite. O aparentemente defraudado cobrador transforma-se naquele que deve criar as condições para que o que está em falta volte a poder cumprir os seus deveres.
Muito inteligentemente, esta forma de acção e de protecção é um verdadeiro investimento no futuro, potenciando, a médio e longo prazo, efectivas cobranças da dívida na totalidade, e não apenas as cobranças parcelares que o curto prazo por hastas realizaria.
O que de essencial tem este pequeno excerto antigo é exactamente o facto de ser antigo, moldado pelo muito correr de água debaixo de pontes. Muita falência, muita gente passada à escravatura por impossibilidade de pagar as dívidas tinha sido retirada à massa produtora e pagante de impostos. Quem lucrava com isso? Obviamente, ninguém lucrava com uma situação económica em que parte da população deixasse de ser produtiva. A longa passagem dos séculos demonstra-o bem. A nossa escassa memória colectiva social afasta-nos de conclusões acima do pensamento diário das bolsas.
Introduzida na economia do Mediterrâneo no início do I Milénio a.C., quatro séculos depois, as principais culturas dessa região deparavam-se com sistemáticos problemas de endividamento que colocavam os próprios sistemas políticos em risco – como hoje, diríamos nós.
Este é o confronto da História enquanto modelo. Não porque a História seja o campo do exemplo de morais e práticas que devamos imitar. Mas porque nos mostra como somos novatos nisto de saber como funcionam as economias e, em especial, as pessoas e as sociedades quando as crises as afectam.
Realmente, imaginemos uma sociedade em que os endividados são acolhidos em “casa” para voltarem a ser produtivos e a pagar impostos? Era bem pensado… e já alguém o pensou há cerca de 2.500 anos. Talvez nunca ninguém o tenha levado à prática.
(Paulo Mendes Pinto)