sábado, 5 de outubro de 2013

Modelos de formação cristã e culturas contemporâneas - III

Pós-modernidade

Não estaríamos a ser realistas se reduzíssemos a cultura contemporânea a essa potenciação do espírito crítico e científico. O denominado espírito «pós-moderno» coloca-nos perante o irrecusável facto de ter entrado em crise a exclusividade do modelo científico-racional, na percepção e vivência do real. Entrou em crise, em realidade, a «crença» e o entusiasmo por esse modelo, de tal modo que a maioria dos contemporâneos se tornou indiferente às suas conclusões, que ignora na maioria. Daí resulta uma relação com o cristianismo que superou já o estádio propriamente crítico, caindo sobretudo em indiferença completa.


Não ignorando, nem descurando o facto de que uma transmissão da fé segundo modelos conceptuais, sistemáticos e lógicos favorece a construção do espírito crítico e da capacidade de argumentação em favor da verdade do conteúdo cristão – o que ajudará à consolidação da convicção crente, mesmo em relação às próprias dúvidas pessoais – o certo é que se torna cada vez mais necessário não esquecer outros caminhos de transmissão, que conheceram longas tradições e que o espírito científico-racional moderno pretendeu suplantar. Será urgente recuperar modelos narrativos, dramáticos, poéticos e simbólicos de transmissão da fé, que explorem registos da linguagem mais existenciais e performativos e que, por essa via, possam empenhar de forma mais englobante as diversas dimensões da pessoa humana, à boa maneira da mais ancestral tradição bíblica e patrística.

Esse poderá ser, por um lado, o caminho mais indicado para desbloquear a indiferença e o desinteresse de muitos dos nossos contemporâneos, em relação ao conteúdo crente; por outro lado, esse modelo permitirá que o conteúdo seja compreendido de forma mais abrangente, evitando todo o tipo de redução intelectualista. Assim, a transmissão da fé, em dias de hoje, deverá optar preferencialmente por um modelo catecumenal, que integre as dimensões doutrinal, vivencial e celebrativa da fé, pois é aí que encontram eco também todas as dimensões do próprio ser humano, a quem se dirige a Palavra salvífica.

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