quinta-feira, 30 de maio de 2013

Catequese e Famílias, um novo desafio


A crise familiar e sua consequente perda de identidade

Actualmente, um dos temas que mais preocupações tem suscitado no seio da nossa sociedade é justamente a crise familiar, cuja perda de identidade tem vindo a intensificar-se nas últimas décadas.
Na verdade, são inegáveis as transformações sociais, culturais e políticas que convergem para provocar uma crise cada vez mais evidente da família, comprometendo «em boa medida, a verdade e a dignidade da pessoa humana e põem em discussão, desfigurando-o, o próprio conceito de família» (EE 90).  
Em boa verdade, a família, célula viva da nossa sociedade, está profundamente transformada nos seus modos de constituição, nas suas formas, na sua composição, assim como na sua própria estrutura. Se observarmos atentamente a realidade que nos envolve, é cada vez mais recorrente o aumento do número de famílias ausentes, desestruturadas, com pouco tempo para o convívio familiar e pouco conscientes do seu papel de primeiros educadores, muito devido às intensas solicitações exteriores à própria família.

Novo contexto sócio-cultural e religioso na transmissão da fé

As profundas transformações socioculturais que marcam esta nova situação familiar repercutem-se, invariavelmente, ao nível da transmissão da fé. Com efeito, se antes a comunicação da mesma passava quase espontaneamente de pais para filhos, hoje a transmissão da fé depara-se com dificuldades cada vez maiores. Constata-se, na verdade, que, na globalidade das crianças e adolescentes que frequentam a catequese, muitos destes não adquirem o sentido da presença e da amizade de Deus, e muitos deles nem sempre podem contar com o apoio da família para o crescimento da fé. Falta-lhes, em geral, uma relação vivida com Deus e uma leitura da vida humana à luz desta relação. Conscientes desta ausência de união entre a fé e a vida, uma das apreensões mais recorrentes dos párocos e catequistas assenta, frequentemente, na fraca motivação dos pais em acompanhar o crescimento de fé dos seus educandos. Com efeito, ainda que, no processo de evangelização, encontremos pais corajosos, dispostos a aprofundar a sua fé, a fim de a poderem transmitir aos seus filhos, verificámos, no entanto, que muitos outros pais se encontram desencorajados e pouco conscientes da sua missão evangelizadora, porque sem a pertença mínima à memória da fé cristã.


Verifica-se que a transmissão da fé, que antes tinha os seus canais próprios na família, encontra-se, hoje, debilitada, sendo, pois, urgente, «redescobrir a verdade da família, enquanto íntima comunhão de vida e de amor, aberta à geração de novas pessoas; a sua dignidade de “igreja doméstica” e a sua participação na missão da Igreja e na vida da sociedade» (EE 90). A este respeito, também João Paulo II, na sua Exortação Apostólica sobre a Catequese para Hoje, enfatiza o papel missionário da família, considerando a sua «ação catequética (...) em certo sentido, insubstituível» (CT 68). De facto, é na família que cada um de nós experiencia momentos estruturantes que nos levam a tomar consciência de sermos pessoas humanas e é nela que vivenciamos o sentimento mais precioso e belo que qualquer ser humano pode e deve experienciar: o Amor. É importante perceber que a família é, antes de mais, uma comunhão de amor, e só através de um verdadeiro testemunho de amor na família, podemos sentir uma verdadeira experiência de Deus: «Como sem o amor, a família não é uma comunidade de pessoas, assim também, sem o amor, a família não pode viver, crescer, aperfeiçoar-se como comunidade de pessoas» (FC 18).  

A família: escola de fé

A família é, neste sentido, a primeira escola de fé, o espaço onde os seus membros sentem a presença do amor de Deus, sentem-se como uma Igreja doméstica, onde o amor é uma realidade presente e constante. Mais do que qualquer palavra, o processo de crescimento da fé, na família, brota da convivência, do clima familiar e do testemunho de vida de fé dos pais.
Destarte, e sendo que «a catequese familiar (…) precede, acompanha e enriquece todas as outras formas de catequese» (CT 68), impõe-se, hoje, mais do que nunca, um claro desafio à evangelização e ao trabalho desenvolvido com os pais das crianças e adolescentes que participam nas nossas catequeses paroquiais, em direcção a uma verdadeira consciência catequética familiar. De facto, para que toda a Igreja cresça em comunidade, é prioritário ajudar as famílias a serem experiências de comunhão de vida e de amor, consciencializando-as da sua missão enquanto primeiras educadoras da fé. Ora, sendo a catequese uma caminhada conjunta, onde todos os membros da comunidade cristã (pais, catequistas, catequizando e demais povo de Deus) procuram testemunhar e anunciar a Palavra de Deus, os pais devem ser orientados e ajudados, não só para dar uma formação consciente e explicitamente cristã aos filhos, mas também para eles mesmos crescerem no seu compromisso cristão e na capacidade de iluminar pela fé a realidade familiar e social, que são chama­dos a construir. 


Revela-se, deste modo, prioritário encorajar todos membros da comunidade cristã, em particular catequistas e párocos, a ajudar os pais a cumprirem a sua missão evangelizadora, promovendo, para tal, serviços acolhedores, dedicados e perseverantes, que fomentem a participação activa dos mesmos nesta caminhada. Assim sendo, é de todo vantajoso que cada paróquia se dedique à promoção de um verdadeiro percurso catequético de adultos, uma vez que comunidade cristã não poderá pôr em prática uma catequese permanente, sem a participação direta e consciente dos pais e demais adultos. Em boa verdade, não nos podemos esquecer que a família não é um simples destinatário ou objecto de catequese, mas, pelo contrário, é o local por excelência de catequese, sobretudo na primeira infância. Nesse sentido, é fundamental ter em atenção o testemunho de fé e de amor, as necessidades, os interesses e problemas de cada uma das famílias envolvidas no processo catequético. Dever-se-á, pois, estimular, entre pais e catequistas, uma relação positiva, franca e aberta, assente no diálogo e na confiança, onde todos os membros se sintam incentivados a colaborar activamente, e em conjunto, na planificação dos diferentes momentos do acto catequético. Trata-se, pois, de criar, entre estes, uma «educação partilhada», onde todos intervêm plenamente na caminhada catequética. Consequentemente, a catequese deixa de ser concebida como algo que é oferecido aos pais, passando, pelo contrário, a ser desenvolvida e vivida por todos. Sentindo-se acolhidos, os pais sentem-se envolvidos na catequese dos seus filhos. Isto dependerá, não obstante, do trabalho de equipa desenvolvido pelos diferentes responsáveis, assim como da qualidade da relação comunicativa desenvolvida entre os mesmos. Contudo, e apesar das dificuldades que este trabalho de equipa comporta, não nos podemos esquecer que este trabalho permitirá a condução dos catequizandos a uma vida verdadeiramente cristã, humana e feliz.

domingo, 26 de maio de 2013

Objetivos na Catequese!? Para quê?



A catequese, enquanto serviço eclesial de transmissão da fé cristã, tem como missão levar o catequizando a entrar em comunhão e em intimidade com Jesus Cristo (CT 5), convidando-o a uma relação pessoal de amizade com Ele. Esta é, de facto, a grande meta da catequese.


 Deste modo, com vista à conversão do catequizando a Jesus Cristo, a ação catequética deve ser norteada de forma a dar a este uma formação orgânica e sistemática da fé cristã, orientando-se por um conjunto de objectivos gerais ajustados aos itinerários catequéticos propostos. Com efeito, ainda que a grande finalidade da catequese seja a de favorecer, no catequizando, uma profissão de fé viva, explícita e atuante, esta deve ter sempre em atenção a realidade dos catequizandos, a sua idade, assim como a sua caminhada anterior.
Assim, é importante que, no início de cada ano catequético, o catequista, ou grupo de catequistas, proceda a uma análise e reflexão dos objetivos propostos no guia, quer para o ano em que este está diretamente envolvido, quer para a fase em que esse ano está inserido.
Em boa verdade, sendo a catequese um encontro com Deus, e para que esta atinja a sua meta, é essencial prepará-la com a antecedência devida. Este é um trabalho que deve ser feito com calma e muita ponderação pelo catequista, ou grupo de catequistas. Além disso, é muito importante que, no seu trabalho de preparação da catequese, o catequista tenha presente a realidade do seu grupo de catequese (as suas necessidades, expectativas, os seus conhecimentos), de forma a que, em harmonia com os objectivos gerais de cada itinerário catequético, e em coerência com a grande finalidade da catequese, trace um caminho a seguir, bem como um conjunto de objectivos claros e precisos – o que fazer e porquê –, por forma a alcançar o que se pretende. A sua função é a de clarificar e a de orientar a ação catequética do catequista. Na verdade, apenas com a definição dos objectivos, o catequista poderá preparar e desenvolver um conjunto de estratégias e dinâmicas orientadas para a motivação da aprendizagem.

Só tendo bem claro o que se pretende atingir, o catequista poderá avaliar, de facto, se estes objectivos, previamente definidos, foram ou não atingidos. Só através de uma avaliação regular, o catequista poderá refletir sobre o seu desempenho, melhorando-o, assim como fazer correções e adaptações necessárias, a fim de atingir a meta da catequese. O catequista, no acompanhamento personalizado da caminhada de cada catequizando, vai aferindo se este está a aderir a Jesus Cristo e à fé da Igreja, aproximando-se cada vez mais da finalidade da catequese.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Professar a fé nas Redes


Há uns tempos pensava-se que estar no mundo dos media, entendendo-os como comunicação de massas – os mass media  –, era possuir e utilizar as comunicações de grande difusão. Aqui poucos comunicadores podiam chegar a um grande número de receptores, com uma mensagem bem delineada e clara.
Atualmente, graças à televisão por cabo, à rádio que se ouve à la carte, graças ao podcasting , e às ferramentas da Web 2.0, que permitem a cada cibernauta produzir e difundir aquilo que quiser, de forma rápida, gratuita e muito eficaz, estamos no tempo, não já dos mass media, mas sim dos cross media. E os cristãos são chamados a estar neste ambiente.





O dominicano José Mourão [1947-2011] lançou um desafio muito lúcido quando disse: «a idade da religião como estrutura acabou, a sua função social está a apagar-se. Resta a função subjectiva da experiência religiosa». Até mesmo os sítios onde se faz eco ou dá expressão católica da religião são sítios propícios ao esoterismo e a uma nebulosa de tal modo intrincada que torna difícil a proposta e educação da fé — o testemunho — tornando evidente a necessidade de um «atlas da verdade». Mas «abraçar a fé implica ipso facto para o crente uma auto-exposição às dificuldades duma situação de desolação. ‘A experiência é um embaraço absoluto (…) que pertence à vida do próprio cristão. A afirmação (da Palavra) é para ele uma auto-exposição à ferida da linguagem, antes de mais. Este embaraço é uma característica fundamental, uma inquietude absoluta no horizonte da parusia escatológica’».


Ainda de acordo com José Mourão, «estamos a assistir:
a) à atomização das pequenas narrativas crentes em que a experiência pessoal se torna o seu próprio critério de verificação;
b) à substituição progressiva da relação autorizada com a memória crista (Magistério) por uma pragmática com o stock  disponível das significações cristãs, transformadas em caixa de ferramentas a que se recorre conforme as necessidades (…).
c) ao processo de eufemização das tradições na Tradição com as suas arestas, práticas e conflitos. O catolicismo sobrevive como ‘meio ético-afectivo’ numa sociedade laicizada em profundidade. O cristianismo não pode pretender ao universal senão com a consciência da sua particularidade histórica: ‘É à luz duma teologia da cruz que se pode reaver a singularidade do cristianismo como religião da alteridade.
A verdade cristã é relativa, no sentido de relacional à pluralidade das verdades próprias de cada tradição religiosa. À parte de verdade irredutível que toda a tradição religiosa transporta’.
A sociedade dos media coloca aos cristãos uma questão sobre o acto de tradição: um simples acto de repetição, ou de recriação do lado do emissor, se quer ser criação do lado do receptor?  A perspectiva utilitarista e instrumental que a Igreja tem dos media é excessivamente redutora do seu papel – os media determinam novos universos mentais, uma nova cultura».
Perante a problemática agora exposta, precisamos, então, de uma ferramenta mental que nos ajude a calibrar o nosso olhar. Que nos dê a possibilidade de  a Igreja estar no mundo dos media e aí realizar a sua missão.