«As ciências progridem na medida em que adquirem novas verdades, como fruto da criatividade reflexiva de fundamentação ou investigação de causas. Não basta pois 'vulgarizar' o que outros encontraram; exige-se uma contribuição pessoal que traga qualquer coisa de 'novo': factos, ideias, hipóteses, argumentos, conclusões»(P.e Júlio Fragata SJ). [Um blogue sobre Teologia Prática, Catequética, b-Learning e o que for surgindo...]
sexta-feira, 6 de dezembro de 2013
quinta-feira, 21 de novembro de 2013
Advento, tempo de nevoeiro! - Mensagem para o Advento
1. Diz-nos um teólogo jesuíta que o
desânimo é como que um nevoeiro cerrado. E uma vez debaixo do nevoeiro, todo o
cuidado é pouco: é preciso andar devagar, estar atento a todos os sinais e ter
a convicção de que estamos na direção certa. E não adianta protestar: pois só
com a paciência de saber esperar o raio de luz no caminho, se pode ultrapassar
esse nevoeiro.
Partindo desta imagem, o Advento surge
para nós como um tempo de nevoeiro. Um tempo cuja única certeza é a promessa da
vinda do Filho de Deus ao mundo, para acabar
com todas as nossas dúvidas e restituir-nos a alegria. Por isso, importa
estarmos atentos a todos os sinais
que advêm da Liturgia da Palavra e da iconografia adventícia, para caminharmos
com segurança.
2. Ao olharmos o plano pastoral da
Arquidiocese, que faz a ponte entre a fé professada e a fé celebrada, notamos
como a liturgia oferece estabilidade a este caminho, uma vez que detém duas finalidades:
celebrar a glória de Deus e acolher a sua salvação, efectivada na noite de
Natal.
Nesse sentido,
o Papa Francisco, no nº 19 da Lumen Fidei, não podia ser mais claro: "O início
da salvação é a abertura a algo que nos antecede, a um dom originário
que sustenta a vida e a guarda na existência." Logo, "a
liturgia não é um tranquilizante que nos permite viver sem nenhum esforço de conversão individual e colectiva ou
como evasão dos nossos compromissos. Não pode ser uma rotina que não
transforma a vida nem a comunidade cristã. Isto seria empobrecer e perverter o
conteúdo real da ação litúrgica."[1]
3. A vivência
deste tempo pode ser enriquecido com inúmeros subsídios pastorais já disponíveis
em diversas plataformas. E desse modo, gostaria apenas de deixar-vos quatro
perguntas, a reflectir durante este tempo de nevoeiro e de procura (Advento):
temos consciência de que a liturgia é uma ação onde damos glória a Deus e
recebemos a sua salvação? A liturgia nutre a vida da comunidade, que é chamada
a crescer na comunhão e na caridade? Há de facto uma estreita relação entre a
celebração e a ação evangelizadora? Já compreendemos o significado profundo
deste tempo do Ano Litúrgico?
4. Por último, o maior perigo que a
actual crise nos pode causar, mais do que o empobrecimento e o medo, é destruir-nos
a esperança. Sem fé não há esperança! E sem esperança, o Advento será somente
mais um tempo de nevoeiro sem rumo no caminho. Precisamos talvez de deixar que
a fé nos transforme, de cultivar um estilo de vida paciente e de participar na
liturgia com um outro sabor. Só assim é que a fé celebrada será uma autêntica
luz que fará do Advento
um tempo de esperança e de alegria!
É
verdade que a sociedade educou-nos para ter tudo sob controlo, mas por vezes há
nevoeiros na vida pessoal e social que surgem inesperadamente. Só que a cada
imprevisto, Deus responde sempre com uma surpresa, porque a Ele “nada é
impossível”! E há um caminho que nunca devemos ignorar neste tempo de crise: o caminho da fraternidade, pois é no
rosto do outro que Deus vem ao nosso encontro, nomeadamente nos mais
carenciados e desprotegidos.
Na
certeza de que Deus nunca falha nas suas promessas, desejo uma boa caminhada de
Advento para todos vós, convictos de que, a este tempo de nevoeiro, virá um dia
de sol radioso (Natal)!
† Jorge Ortiga, A.P.
21 de novembro de 2013.
sexta-feira, 8 de novembro de 2013
Quid Est Ergo Tempus?: A dívida individual como base de um investimento c...
Um olhar para o distante início da monetarização
"Se um dos teus irmãos empobrecer, e não satisfizer as suas obrigações para contigo, protegê-lo-ás, mesmo que seja um estrangeiro ou um inquilino, e deixa-o viver contigo. Não receberás dele juros nem lucro algum, mas teme o teu Deus para que o teu irmão viva contigo. Não lhe emprestes o teu dinheiro com juros, nem lhe dês os teus mantimentos para disso tirar proveito."
Levítico (25, 35)
Há, por vezes, uma sabedoria que rasga os tempos e irrompe na nossa mente como um trovão que nos remete para as forças ancestrais da natureza. Alguns dos textos mais antigos da humanidade têm esse condão, o de nos despertar para o essencial, subtraindo-nos ao supérfluo. Quando nos parece que andamos enredados em soluções fast-food que nada nos trazem de novo, há sempre uma lufada de ar fresco numa esquina a que nos propúnhamos passar.
Uma dessas esquinas ou encruzilhadas civilizacionais encontra-se no mapa da Bíblia, num inesperado texto de carácter muito formal. Esse texto, muito ligado ao legalismo, portanto, aparentemente pouco rico em aspectos de humanismo, é o Levítico. Seja-se crente, ou não, nos tempos que correm, este texto está repleto de boas práticas económicas vindas dos primeiros séculos de monetarização da economia.
Na mentalidade antiga, o lucro era um resultado que espelhava uma relação com o divino. Temia-se o deus que possibilitava a riqueza. A forma como se geria essa riqueza dada ou possibilitada pelo deus era imagem do que essa mesma divindade poderia pedir em contas num juízo final.
Pela prática apontada pelo Levítico, se uma das partes contratuantes não consegue cumprir o estipulado, em vez de se exigir o pagamento, levando a uma ainda mais profunda e irreversível falência, criam-se as condições para uma evolução financeira que possibilite a retoma da actividade e um futuro pagamento, diríamos nós, sustentado.
A cobrança de dívida é, desta forma, travada nos momentos limite. O aparentemente defraudado cobrador transforma-se naquele que deve criar as condições para que o que está em falta volte a poder cumprir os seus deveres.
Muito inteligentemente, esta forma de acção e de protecção é um verdadeiro investimento no futuro, potenciando, a médio e longo prazo, efectivas cobranças da dívida na totalidade, e não apenas as cobranças parcelares que o curto prazo por hastas realizaria.
O que de essencial tem este pequeno excerto antigo é exactamente o facto de ser antigo, moldado pelo muito correr de água debaixo de pontes. Muita falência, muita gente passada à escravatura por impossibilidade de pagar as dívidas tinha sido retirada à massa produtora e pagante de impostos. Quem lucrava com isso? Obviamente, ninguém lucrava com uma situação económica em que parte da população deixasse de ser produtiva. A longa passagem dos séculos demonstra-o bem. A nossa escassa memória colectiva social afasta-nos de conclusões acima do pensamento diário das bolsas.
Introduzida na economia do Mediterrâneo no início do I Milénio a.C., quatro séculos depois, as principais culturas dessa região deparavam-se com sistemáticos problemas de endividamento que colocavam os próprios sistemas políticos em risco – como hoje, diríamos nós.
Este é o confronto da História enquanto modelo. Não porque a História seja o campo do exemplo de morais e práticas que devamos imitar. Mas porque nos mostra como somos novatos nisto de saber como funcionam as economias e, em especial, as pessoas e as sociedades quando as crises as afectam.
Realmente, imaginemos uma sociedade em que os endividados são acolhidos em “casa” para voltarem a ser produtivos e a pagar impostos? Era bem pensado… e já alguém o pensou há cerca de 2.500 anos. Talvez nunca ninguém o tenha levado à prática.
(Paulo Mendes Pinto)
quinta-feira, 31 de outubro de 2013
Jesus fez-se História
Pelo mistério da Incarnação, Jesus
inseriu-se numa história e num contexto cultural bem definido. Neste sentido,
não foi diferente de nenhum de nós. Todos estamos ligados a uma terra, um credo
e uma família. E a nossa vida é muitas vezes moldada pelo ambiente circundante
em que vivemos. As nossas acções são reflexo do ambiente cultural e cultual em
que estamos inseridos.
Jesus, o Filho de Deus, foi construindo
o seu “álbum de memórias” ao longo de 33 anos que teve como pano de fundo várias
terras da Judeia e da Galileia. De entre as várias localidades poderíamos
destacar Belém, Jerusalém e Nazaré. Isto porque Jesus nasceu na Palestina, em
Belém; viveu em Nazaré e percorreu todo o território da Galileia à Judeia.
Acabou por ser crucificado às portas de Jerusalém, numa pequena colina chamada
Calvário (ou Gólgota em aramaico).
Belém é um território
da palestina sob o regime israelita e significa precisamente “a casa do pão”. Vem como que lembrar a
história do povo de Israel que foi obrigado a partir de sobressalto, apenas
levando o pão ázimo. O pão era o principal alimento de Israel, e por isso
quando um judeu queria agradecer a Deus pelo alimento, levava o pão até ao
templo.
Nazaré era, naquela
altura, uma pequena aldeia com pouca importância, ao ponto de se afirmar: “de
Nazaré pode vir alguma coisa boa?” (Jo 1, 46). Se, por um lado, isto era
verdade, pelo outro, em termos messiânicos, adquiriu bastante valor. Esta era a
povoação onde viviam os descendentes da família do rei David, entre os quais se
inclui José e Maria. Foi aqui que Maria o Anjo interpelou Maria e ela
glorificou o Senhor (Jo 1, 46-56); é também em Nazaré que a Sagrada Família se
instala e Jesus passa grande parte da sua vida.
Em termos políticos e religiosos importa ter noções, ainda que breves. Quanto
às classes sociais sabemos, pelo Novo Testamento, que seriam quatro: alta classe (onde se inclui os
comerciantes, os escribas, doutores da lei e sumos sacerdotes); média classe (seriam os pequenos
comerciantes, funcionários do estado, os publicanos, os escribas e os
fariseus); classe pobre (os
pastores, assalariados… o povo em geral); classe
marginalizada (seriam essencialmente os pobres, viúvas, órfãos e doentes.
Naquela altura, todos os que se encontravam nesta situação não pertenciam à
sociedade e não tinham quaisquer direitos. Daí a preferências das primeiras
comunidades por esta classe social (cf. Tg 1, 25)).
Em termos religiosos havia cinco grupos religiosos: fariseus (que se consideravam os santos e puros, guardiães da
verdadeira fé cristã); saduceus (eram
conservadores e acreditavam na ressurreição. (Mt 22, 23)); essénios (eram monges eremitas que viviam nas grutas de Qumram,
junto ao Mar Morto); samaritanos (grupo
separado dos judeus e que viviam em constante confronto com eles); zelotas (eram um dos vários grupos de
resistência política contra os romanos).
Foi nestas circunstâncias que Jesus
viveu a sua vida: rodeado de tensões tanto ao nível político como ao nível
religioso. Viveu ainda num clima de expectativa, de ansiedade pela vinda do salvador
que iria libertar o povo de Israel do domínio romano. Foi por isso que quando
Cristo falou do Reino, muito entenderam num sentido político e não em termos
escatológicos. Apesar de tudo, Jesus soube inculturar-se e não pretendeu fugir
do mundo, mas antes comprometer-se com ele e apresentá-lo a Deus.
segunda-feira, 21 de outubro de 2013
Jesus Cristo é o Senhor
Olhando para a nossa realidade circundante, verificamos que
as crianças experimentaram um contacto diversificado com a pessoa de Jesus. A
imagem que têm Dele foi acompanhando o seu próprio crescimento e foi-se
transformando: no princípio, Jesus era o “melhor amigo”, depois foi introduzido
como o Filho de Deus. Agora, deve nascer a consciência que Jesus é o Senhor.
Ele foi Homem como nós, excepto no pecado, e inaugurou um novo reino de
felicidade e salvação. Esse reino perpetua-se através da Igreja e renova-se
diariamente em todos nós. Cristo é, portanto, o “Senhor” e Senhor da nossa
vida. Mas, o que significa ser o “Senhor”?
No Antigo Testamento, Deus revelou-se a Moisés por “Eu sou
Aquele que sou” (Ex 3, 14), ao que os Gregos traduziram por Kyrios, ou seja, “Senhor”. Por esta
altura os reis governavam engrandecidos pelo seu nome. Era como que o seu
passaporte e espelhava a sua missão. Deus, enquanto rei de Israel,
apresentou-se como o Senhor. No Novo Testamento, Jesus é reconhecido como sendo
o próprio Deus, logo Ele é Senhor.
Sabemos, pelos evangelhos, que várias pessoas se aproximaram
de Jesus invocando este título cristológico. Pretendem exprimir o “respeito e a
confiança dos que se achegam a Jesus e esperam dele ajuda e cura” (CCE 448).
Reconhecendo a acção salvífica e taumatúrgica de Cristo (o Ungido) mais não
podem senão exclamar: “É o Senhor” (Jo 21, 7).
O mesmo convite é lançado a todos nós: reconhecer que Jesus
Cristo é o Senhor! Percorrer este caminho implica, portanto, uma confissão de
fé (apenas possível pela acção do Espírito Santo) onde O aceitamos como Filho
de Deus e O temos como centro da nossa vida. Por sua vez, esta confissão
comporta um modo de vida muito particular: a opção fundamental por Cristo. Diz
o Evangelho que “ninguém pode servir a dois senhores: ou não gostará de um
deles e estimará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro” (Mt 6, 24).
O mesmo é dizer que apenas devemos submeter a nossa liberdade a Deus Pai e ao
Senhor Jesus Cristo e a mais ninguém: seja o dinheiro, fama ou outras paixões
(cf. CCE 450).
Por fim, não podemos deixar de mencionar que qualquer oração
cristã e, em especial, a Eucaristia são constantes hinos ao senhorio de Jesus.
Nelas convidamos à oração através de “o Senhor esteja convosco” e terminamos
“por nosso Senhor Jesus Cristo”. No acto penitencial, por exemplo, clamamos:
“Kyrie, eleison”, ou seja, “Senhor, tende piedade de nós”. É o reconhecimento
de que Jesus é o centro de toda a vida cristã.
domingo, 6 de outubro de 2013
Modelos de formação cristã e culturas contemporâneas - VI
Globalização
Um dos elementos mais
marcantes e também mais ambivalentes das transformações culturais dos últimos
séculos é, sem dúvida, o processo da denominada globalização. Por um lado, os
contactos entre as diversas partes do globo, impulsionados a partir da
Renascença e tornados banais durante todo o século passado – sobretudo através
das tecnologias de comunicação – conseguiram instaurar relações de interdependência
entre todos os seres humanos, tornando visível o facto de todos pertencerem à
mesma condição fundamental, irmanados numa solidariedade universal. Por outro
lado, contudo, essa interacção planetária potenciou o desenvolvimento de
poderes despersonalizantes, que anulam as identidades particulares e que
desrespeitam a dignidade fundamental de cada ser humano concreto. Assim, a
inserção dos nossos contemporâneos no processo de globalização, fazendo com que
este permita uma correcta articulação entre o universal e o particular é, sem
dúvida, um dos desafios sócio-culturais mais importantes da época que vivemos.
A transmissão da fé nessas
circunstâncias deverá, por um lado, saber situar-se na ambivalência dessa
situação, tomando consciência da sua orientação mundializante e não apenas
particularista; mas, por outro lado, terá que tomar cada vez mais consciência
do dever que a vivência pragmática da fé cristã tem de dar um contributo
positivo para um melhor equilíbrio neste processo problemático.
Na sua própria tradição, o
cristianismo encontra a fonte do correcto equilíbrio entre universalidade e
particularidade, dado que radica precisamente nessa relação. A Boa Nova de
Jesus Cristo assenta na relação a uma pessoa particular, numa história
particular, através de mediações particulares; mas, do mesmo modo, não se trata
de uma Boa Nova particularista, só para uma etnia, ou só para um continente, ou
só para uma classe social: é uma proposta universal de salvação que não conhece
fronteiras de qualquer género.
Assim sendo, a
universalidade da fé cristã não se identifica com a totalidade da manipulação
de todos os recantos do globo nem com o totalitarismo da uniformidade pura. É,
antes, a universalidade do relacionamento entre particularidades reais, únicas
e irrepetíveis. Assim também a evangelização será regionalizada no concreto,
por isso sempre plural e diversificada, caso a caso; mas, ao mesmo tempo, de
dimensão universal, dirigida a todos os seres humanos sem excepção,
contribuindo por essa via para fomentar a unificação planetária, para além dos
horizontes estreitos dos particularismos culturais, e superando talvez o
desencanto pós-moderno perante as promessas irrealizáveis da economia e da
cultura mundializada.
sábado, 5 de outubro de 2013
Modelos de formação cristã e culturas contemporâneas - VII
Conflitos da fé, arte e ciência
Uma das marcas mais
«traumáticas» da relação entre a fé cristã e a cultura, ao longo dos últimos
três ou quatro séculos é, sem dúvida, o conflito entre fé, ciência e arte. O
momento cultural actual, após a superação de posições extremas, quer da
ciência, quer da arte, quer da própria Igreja, parece propício à recuperação do
diálogo entre essas actividades humanas fundamentais.
A ciência, após o abandono
das suas pretensões totalizantes e absolutas, encontra-se cada vez mais aberta
à sua integração numa perspectiva mais abrangente da realidade, sem perder a
sua legítima autonomia de funcionamento. A arte, após um percurso sinuoso pela
destruição e metamorfose de toda a herança cultural, está cada vez mais
consciente da sua relação com essa tradição, assim como com a dimensão
religiosa do ser humano, percorrendo cada vez mais caminhos explícitos de
transcendência. Por seu turno, a Igreja assumiu claramente o facto de que a fé
cristã não precisa de entrar em conflito directo com essas actividades, naquilo
em que a respectiva autonomia o justifica. O respeito por essa autonomia não
contradiz a atitude crente, pois trata-se de dimensões diferentes da actividade
humana.
Por outro lado, cada vez
mais a fé cristã se torna consciente de que não pode ausentar-se da relação
quotidiana com essas – e outras – actividades, uma vez que elas fazem parte da
vida dos seres humanos e esta não pode separar-se da dimensão religiosa ou da
atitude crente. Um dos grandes desafios da cultura actual à transmissão da fé
consiste, precisamente, na necessidade de relacionar de modo fértil a vivência
da fé com essas realizações culturais que são, sem dúvida, das mais profundas
que uma cultura pode conhecer, a ponto de serem, muitas vezes, identificadas
com a própria cultura. A transmissão da fé terá que, por um lado, aprender com
o contributo de todos os humanos que se dedicam a essas actividades e, por
outro lado, deverá orientá-las para a sua verdadeira finalidade, colocando-as
ao serviço da humanização de todos os seres humanos e, desse modo, ao serviço
da construção do Reino de Deus.
Modelos de formação cristã e culturas contemporâneas - IV
Imanência
Uma das características da
cultura actual, naquilo em que prolonga a herança da modernidade ocidental –
esta reflexão está situada no Ocidente e não seria assim no Oriente –, é sem
dúvida a tendência para a afirmação da positividade do mundo imanente. As
realidades terrenas, mesmo na sua materialidade própria e nos processos
internos de interacção, foram sendo progressivamente assumidas e valorizadas na
sua autonomia própria. É certo que essa perspectiva possui profundas raízes
bíblicas, mas não é menos certo que a história do cristianismo ocidental muitas
vezes se desviou dessa compreensão do real, favorecendo uma leitura «gnóstica»
do mundo, com base numa ambígua concepção de transcendência e da sua relação
com a imanência. Assim sendo, a tendência «mundanizante» da modernidade pode
ser lida como possível recuperação do espírito bíblico, sobretudo do espírito
cristão da Incarnação.
Nos últimos séculos da
história ocidental, uma cultura predominante e quase exclusivamente espiritual
e orientada para um outro mundo, foi dando lugar a uma cultura incarnada,
terrena, concentrada nos processos biológicos, sociais e pessoais que
acompanham o real quotidiano dos seres humanos. No seu extremo, essa posição
conduziu mesmo à contraposição da imanência à transcendência, pretendendo como
falsa toda a referência a esta. Mas essa versão radical não foi a única nem
invalida os elementos positivos da valorização do mundo concreto, que constitui
a vivência dos nossos contemporâneos.
Essa valorização foi
acolhida, progressivamente, pela própria Igreja, revendo nela a sua mais
profunda e antiga tradição bíblica, cujas matrizes criacional e incarnacional
não permitem a condenação do mundo, enquanto tal. A ambiguidade desse mundo e
mesmo o problema do mal, embora não permitam uma aceitação total do actual
estado das coisas, tal como se nos apresentam, não pode contudo conduzir a uma
fuga deste e à anulação da sua pertinência, mesmo salvífica. A caminho da
perfeição, a criação e a humanidade sofre, mas já caminha no processo de
salvação. O reino de Deus já cresce cada dia e o Espírito continua a suscitar
nos corações sentimentos de liberdade e de amor.
Neste contexto cultural –
por razões teológicas e não apenas de «adaptação» – torna-se especialmente
pertinente praticar uma transmissão da fé de forma incarnada, que leve a sério
as realidades mundanas em que vivemos, mesmo nos casos em que é necessário
criticá-las profeticamente. A fé não pode ser reduzida a mera atitude
espiritual. De igual modo, a sua transmissão terá que assumir configuração
pragmática, quotidiana e localizada, orientando-se para o compromisso incarnado
de quem a acolhe.
Ora, uma das ambiguidades da
nossa cultura, que acompanha o crepúsculo da modernidade, reside precisamente
nas diversas formas de recuperação do gnosticismo, que podem conduzir à
reinstauração de uma vivência desincarnada do real. Quer no âmbito do movimento
neo-religioso sectário de teor «New Age», quer no interior da actual cultura
mediático-virtual, a dinâmica da incarnação corre sérios riscos, podendo os
nossos contemporâneos ser permanentemente conduzidos para um mundo de ilusão,
onde facilmente serão manipulados.
Perante esse perigo real, assume
redobrada importância um modelo de transmissão da fé incarnado na história
concreta dos interlocutores. Privilegiará as relações inter-pessoais directas,
num leque de tempos e espaços reais, enquadrado em instituições locais e
próximas – das quais, uma das mais eficazes é ainda a comunidade paroquial,
mesmo se desmembrada em muitos grupos mais pequenos, porque mais concretos e
personalizados.
A localização e a incarnação – e a consequente glocalização digital –, no processo de transmissão da fé, poderão ainda contribuir para enfrentar o crescente processo de indiferença política dos nossos contemporâneos, sobretudo dos mais jovens. A aprendizagem pragmática da participação e do compromisso sócio-político, a nível de pequenos grupos ou de instituições locais será um dos caminhos mais eficazes para experimentar a importância – enquanto direito e dever – da actividade política, assim como para manifestar claramente a dimensão sócio-política do próprio conteúdo da fé cristã (Cf. LF).
Modelos de formação cristã e culturas contemporâneas - V
Humanismo
É inquestionável que uma das
marcas da cultura moderna – que, apesar de todas as crises, continua a
determinar o horizonte dos nossos valores – é a sua orientação humanista. Mesmo
que de formas muitas vezes ambíguas e até desmesuradas, a herança cultural do
judaísmo e do cristianismo mede-se sobretudo pela centralidade da pessoa
humana, sujeito de dignidade fundamental, anterior e superior a todas as
ideologias, sistemas e instituições.
O conteúdo da fé cristã
encontra aí uma das mais excelsas aplicações sócio-culturais. Tendo em conta
que essa dignidade lhe vem do próprio Deus e que só com ele a pode sustentar e
manter, a transmissão da fé deverá tornar claro que o caminho da Igreja –
porque caminho de Deus – é o próprio ser humano, na sua mais fundamental
humanidade. Por isso, o antropocentrismo não contradiz o teocentrismo; ambos se
pressupõem mutuamente, segundo a mais genuína concepção bíblica de Deus e do
ser humano.
Mas o antropocentrismo
bíblico não é individualista nem egoísta. A centralidade do ser humano é a
centralidade do outro ser humano e
não do si mesmo de cada um. Por isso,
o humanismo da fé cristã é o humanismo da completa doação ao outro, sobretudo àquele
que mais desfavorecido é pelas circunstâncias sócio-existenciais. A vivência da
fé cristã implica, por isso, doação da vida aos outros, quer no apoio concreto
a situações existencialmente difíceis, quer na denúncia profética da
desumanização das relações, no combate directo contra a pobreza, na promoção da
justiça e da paz, na defesa da vida de todos os que não a podem defender por si
mesmos, etc.
Sabemos, contudo, que a
nossa cultura actual não é univocamente humanista e que mesmo os movimentos que
se pretendem humanistas o são, por vezes, de modo muito ambíguo. O processo de
expansão dos grupos económicos contemporâneos aponta para uma clara tendência
de subjugação das pessoas humanas concretas aos interesses de sistemas anónimos
deslocalizados e despersonalizados.
Esse contexto redobra a
exigência e a pertinência de uma transmissão da fé personalizada, com a pessoa
humana no centro, quer enquanto receptor da Palavra, quer enquanto conteúdo
vivo da própria fé, que exige compromisso pelo destino dos outros.
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