segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Santo Natal!

No Natal, que chega até nós pela beleza, pela grandeza, pela bondade, celebramos o Deus visível em Jesus Cristo. A manifestação da beleza, do belo, torna-nos felizes sem que devamos interrogar-nos sobre a sua utilidade. 
A glória de Deus, da qual provém toda a beleza, faz explodir em nós o deslumbramento e a alegria. Quem vislumbra Deus, sente alegria; e, nesta quadra, vemos algo da sua luz, que não nos obriga a nada: só a sermos verdadeiramente humanos!

sábado, 3 de dezembro de 2011

Há dias em que me dá para o cinema!

Vi o “Habemus Papam” de Nanni Moretti, que tem a particularidade de “mostrar” um Vaticano em que, após a morte do Papa, é eleito um novo em Conclave. Até aqui tudo bem. Mas, na hora de ser anunciado, ele sofre um ataque de pânico, entra em depressão e precisa de fazer terapia psiquiátrica. O filme faz uma crítica à crise da Igreja no mundo de hoje. Houve momentos em que ri, para não chorar. A personagem do Papa “deprimido” tem um desempenho extraordinário e, apesar aparentar ser o mais doente, tem o discurso mais lúcido do filme!

Depois vi o “Dos Homens e dos Deuses” de Xavier Beauvais, onde se pode ‘tocar’ com o coração aquilo que é o discernimento, à luz do Mistério da Encarnação.

Foram momentos de síntese marcantes para mim, e como para recordar melhor é preciso algo que marque e que fique, elegi a música de Mercedes Sosa - “Todo Cambia”, que aparece no Habemus Papam. Mas é aí que, em ligação com o discernimento, está a solução, a meu ver: tudo muda, exceto o amor, melhor o Amor.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

A propósito, ou não, d«O último segredo»

Ando há dias a terminar de ler um romance «A Alma das Pedras», de Paloma Sanchez-Garnica. Este romance versa sobre a relação entre as peregrinações a Santiago de Compostela e o culto velado ao herege Pelágio.
Logo que termine, vou ler «O último segredo» de José Rodrigues dos Santos.
Quem me conhece, poderá pensar: aquele homem não tem mais que fazer? Tanta literatura boa e anda por ali. Bom, também ando por aqui! Estes tipos de romances, de que o Código de Da Vinci é um bom ícone, são uma expressão de uma certa cultura pseudo-religiosa, que existe e está na mente e coração dos nossos contemporâneos, a quem devo, como crente, propor o sempre novo Evangelho. Daí que esta leitura é uma forma de conhecer e pensar sobre os modos como hoje o 'religioso' e as religiões são vistas.
Andava eu nestes pensamentos, quando vejo o texto do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura que transcrevo. É bom ouvir quem sabe, mesmo que queiramos fazer a experiência de «ir lá».



Uma imitação requentada: Nota sobre o romance "O último segredo", de José Rodrigues dos Santos

O romance de José Rodrigues dos Santos, intitulado “O último segredo”, é formalmente uma obra literária. Nesse sentido, a discussão sobre a sua qualidade literária cabe à crítica especializada e aos leitores. Mas como este romance do autor tem a pretensão de entrar, com um tom de intolerância desabrida, numa outra área, a história da formação da Bíblia por um lado, e a fiabilidade das verdades de Fé em que os católicos acreditam por outro, pensamos que pode ser útil aos leitores exigentes (sejam eles crentes ou não) esclarecer alguns pontos de arbitrariedade em que o dito romance incorre.

1. Em relação à formação da Bíblia e ao debate em torno aos manuscritos, José Rodrigues dos Santos propõe-se, com grande estrondo, arrombar uma porta que há muito está aberta. A questão não se coloca apenas com a Bíblia, mas genericamente com toda a Literatura Antiga: não tendo sido conservados os manuscritos que saíram das mãos dos autores torna-se necessário partir da avaliação das diversas cópias e versões posteriores para reconstruir aquilo que se crê estar mais próximo do texto original. Este problema coloca-se tanto para o Livro do Profeta Isaías, por exemplo, como para os poemas de Homero ou os Diálogos de Platão. Ora, como é que se faz o confronto dos diversos manuscritos e como se decide perante as diferenças que eles apresentam entre si? Há uma ciência que se chama Crítica Textual (Critica Textus, na designação latina) que avalia a fiabilidade dos manuscritos e estabelece os critérios objetivos que nos devem levar a preferir uma variante a outra. A Crítica Textual faz mais ainda: cria as chamadas “edições críticas”, isto é, a apresentação do texto reconstruído, mas com a indicação de todas as variantes existentes e a justificação para se ter escolhido uma em lugar de outra. O grau de certeza em relação às escolhas é diversificado e as próprias dúvidas vêm também assinaladas.
Tanto do texto bíblico do Antigo como do Novo Testamento há extraordinárias edições críticas, elaboradas de forma rigorosíssima do ponto de vista científico, e é sobre essas edições que o trabalho da hermenêutica bíblica se constrói. É impensável, por exemplo, para qualquer estudioso da Bíblia atrever-se a falar dela, como José Rodrigues dos Santos o faz, recorrendo a uma simples tradução. A quantidade de incorreções produzidas em apenas três linhas, que o autor dedica a falar da tradução que usa, são esclarecedoras quanto à indigência do seu estado de arte. Confunde datas e factos, promete o que não tem, fala do que não sabe.

2. Chesterton dizia, com o seu notável humor, que o problema de quem faz da descrença profissão não é deixar de acreditar em alguma coisa, mas passar a acreditar em demasiadas. Poderíamos dizer que é esse o caso do romance de José Rodrigues dos Santos. A nota a garantir que tudo é verdade, colocada estrategicamente à entrada do livro, seria já suficientemente elucidativa. De igual modo, o apontamento final do seu romance, onde arvora o método histórico-crítico como a única chave legítima e verdadeira para entender o texto bíblico. A validade do método de análise histórico-crítica da Bíblia é amplamente reconhecida pela Igreja Católica, como se pode ver no fundamental documento “A interpretação da Bíblia na Igreja Católica” (de 1993). Aí se recomenda o seguinte: «os exegetas católicos devem levar em séria consideração o caráter histórico da revelação bíblica. Pois os dois Testamentos exprimem em palavras humanas, que levam a marca do seu tempo, a revelação histórica que Deus fez… Consequentemente, os exegetas devem servir-se do método histórico-crítico». Mas o método histórico-crítico é insuficiente, como aliás todos os métodos, chamados a operar em complementaridade. Isso ficou dito, no século XX, por pensadores da dimensão de Paul Ricoeur ou Gadamer. José Rodrigues dos Santos parece não saber o que é um teólogo, e dir-se-ia mesmo que desconhece a natureza hipotética (e nesse sentido científica) do trabalho teológico. O positivismo serôdio que levanta como bandeira fá-lo, por exemplo, chamar “historiadores” aos teólogos que pretende promover, e apelide apressadamente de “obras apologéticas” as que o contrariam.

3. A nota final de José Rodrigues dos Santos esconde, porém, a chave do seu caso. Nela aparecem (mal) citados uma série de teólogos, mas o mais abundantemente referido, e o que efetivamente conta, é Bart D. Ehrman. Rodrigues dos Santos faz de Bart D.Ehrman o seu teleponto, a sua revelação. Comparar o seu “Misquoting Jesus. The Story Behind who Changed the Bible and Why” com o “O Último segredo” é tarefa com resultados tão previsíveis que chega a ser deprimente. Ehrman é um dos coordenadores do Departamento de Estudos da Religião, da Universidade da Carolina do Norte, e um investigador de erudição inegável. Contudo, nos últimos anos, tem orientado as suas publicações a partir de uma tese radical, claramente ideológica, longe de ser reconhecida credível. Ehrman reduz o cristianismo das origens a uma imensa batalha pelo poder, que acaba por ser tomado, como seria de esperar, pela tendência mais forte e intolerante. E em nome desse combate pelo poder vale tudo: manobras políticas intermináveis, perseguições, fabricação de textos falsos… Essa luta é transportada para o interior do texto bíblico que, no dizer de Ehrman, está texto repleto de manipulações. O que os seus pares universitários perguntam a Ehrman, com perplexidade, é em que fontes textuais ele assenta as hipóteses extremadas que defende.

4. Resumindo: é lamentável que José Rodrigues dos Santos interrogue (e se interrogue) tão pouco. É lamentável que escreva centenas de páginas sobre um assunto tão complexo sem fazer ideia do que fala. O resultado é bastante penoso e desinteressante, como só podia ser: uma imitação requentada, superficial e maçuda. O que a verdadeira literatura faz é agredir a imitação para repropor a inteligência. O que José Rodrigues dos Santos faz é agredir a inteligência para que triunfe o pastiche. E assim vamos.
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura
© SNPC | 23.10.11

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Credo Missionário

1 - Cremos que Deus nos chamou e nos enviou a anunciar o Evangelho
      de seu Filho a todos os pontos da terra.

2 – Cremos que todos os baptizados, membros da Igreja, são
       missionários e missionárias por vocação.

3 – Cremos que a missão é a resposta ao plano de Deus, que no seu
        imenso amor e vontade, quer que todos conheçam a Verdade.

4 – Cremos que a vontade de Deus é que todos acreditem em Jesus Cristo
       Seu único Filho, se salvem e tenham a vida eterna.

5 – Cremos que podemos ser missionários sem sair da nossa aldeia ou
       da cidade, pois o nosso país é terra de missão.

6 – Cremos que como seguidores de Cristo, devemos comportar-nos
       de maneira firme e digna da vocação a que fomos chamados.

7 – Cremos que o mundo necessita de ver e sentir o nosso testemunho
       de amor, de esperança e de alegria por sermos cristãos.

8 – Cremos que o Espírito Santo nos dará energia, vontade e imaginação
       para lutar contra a corrente adversa e enfrentar perseguições.

9 – Cremos que os cristãos, tal como Jesus, são chamados a caminhar na
       História ao lado de todos os que sofrem.

10 – Cremos que a Virgem Maria caminha connosco, transmitindo ao
         nosso coração o que disse nas Bodas de Cana: “Fazei tudo o que Ele vos disser”.

   (Arranjo de Artur Soares)

quinta-feira, 12 de maio de 2011

La Ultima Cima

Eu conheci Pablo Dominguez!
Cada vez gosto mais de ter estado em «San Dámaso» e pela primeira vez dei valor ao Diploma que me deram: ele era o Decano de Teologia!


terça-feira, 10 de maio de 2011

Meta-carta a Deus (endereço desconhecido)

A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo. Quando verei aquele de que tenho tanta sede? As lágrimas são o meu pão de dia e de noite, eu que todo o tempo ouço perguntar. - onde está o teu Deus? (SI 41, 1-4)

1. Quase já não escrevo cartas. Respondo a chamadas telefónicas; respondo, se não suspeito da fonte, aos chamados que me chegam do céu (electrónico). Escrever, até pela dificuldade que teriam os destinatários em decifrar os gatafunhos em que inconscientemente entrei, tornou-se raro. Há desvios e perdas de correio por culpa (minha) da letra. E aqui começa o problema: faz parte do destino da carta perder-se, extraviar-se. Há uma fórmula que adverte para esse extravio: atopos ho Théos.
Esta fórmula diz que nem o sagrado nem o numinoso são Deus. «Onde moras?», perguntam aqueles a quem a palavra é dirigida em primeiro lugar (Jo 1, 36) e que seguem aquele que não tem sequer uma pedra onde repousar a cabeça. Outro problema: o do destinatário. Acontece-nos escrever não sabendo se aquele a quem escrevemos ainda vive. F. Nietzsche traçou um primeiro prognóstico em 1886: «O acontecimento recente mais importante é este: Deus morreu.» E se mudou de morada, se não está disposto a responder-me? As cartas ao Pai Natal são de negócio e fingimento, não são cartas de amor. Deus vem de Deus, de graça, não vou por aí. Escrever só para pedir é mesquinho. Também não enviarei uma carta ao Javé ou ao Deus teológico (Jesus Cristo) de H. Bloom que, pelos vistos, nem sequer se conhecem. Sei, porém, que toda a escrita é uma prática do espaço (do desejo e da página em branco). Sei que "a linguagem se ouve mas que o pensamento se vê"  (Agostinho di-lo no De Trinitate). A palavra cruza-se no espaço do que escreve, do que joga, do que vê. Sei que a Deus se vai com palavras, mesmo sabendo que o drama da interlocução se instalou entre os humanos e que o sentido (da língua) se pode tornar uma impostura. A teologia da de Deus, mas, ao mesmo tempo, fala de um Deus que fala aos humanos, supostamente capazes de lhe dar o seu assentimento, revelando-os a si mesmos a partir de um horizonte «não mundano», logorreico, da palavra. Lactâncio dizia que Deus, por ser um Deus vivo, está sempre em movimento, é capaz de adfectus, de paixão, e que é portanto capaz e amor e de cólera. Este é também o ponto de vista de Bernardo Soares: «Onde está Deus, mesmo que não exista?... um regaço para chorar, mas um regaço enorme sem forma, espaçoso, como uma noite de verão e contudo próximo, quente, feminino, ao pé de uma lareira qualquer... Poder ali chorar coisas impensáveis, falências que nem sei quais são, ternuras de coisas inexistentes, e grandes dúvidas arrepiadas de não sei que futuro... ». Um Deus feminino, à maneira de Juliana de Norwich é um Deus a quem mais facilmente se vai. Se, como afirma Tertuliano: «Nada é, se não é um corpo. Nada é incorpóreo.», Deus há-de ter um corpo, logo há-de ouvir, falar, sentir.
Os pressupostos para falar (escrever) parecem desanuviar-se.

2. Reconhece-se a palavra pelos seus efeitos no corpo. O Teu nome está escrito no meu corpo como memória e futuro. Começo, pois a escrever-Te, porque, ao contrário de Kierkegaard que Te pensava imutável, eu creio que a minha (fala) escrita Te move e Te comove. Ao Deus causa sui ninguém pode rezar nem dançar. Aos místicos é o indizível que lhes dá o poder de falar. E a entrar, tem de ser pela roda da enunciação: eu, aqui e agora, escrevo-Te. Escrevo-Te com o punhado de palavras que me habita para dizer o mais além de mim que passa também pela treva luminosa das palavras e pelo fascínio dos nascimentos novos. A palavra é, de raiz, messiânica. Escrevo porque espero O teu advento. Escrevo para celebrar o Teu Nome, ao desabrigo dos nomes. Contra a idolatria conceptual que Te congelou no tempo. Contra o velho e cínico humanismo e o seu sonho demiúrgico de em tudo dar ao homem um trono e um altar. Escrevo para afirmar, não apenas para dizer os limites da linguagem ou a besta imunda que evoca o teu Nome para matar e torturar e vigiar. Creio, sim, que o nome que melhor Te convém continua a ser este: Amor.
Ou este outro: Misericórdia. Nunca Te vi, Deus abscondítus, apenas Te pressinto no olhar aflito ou alegre dos passantes. Apenas te pressinto na palavra, que é um vivo. Ou na pujança que move o mundo. Sim, o olhar transporta. O sentido é transpositivo. A palavra é legião: sei que não falo no deserto, alucinado e estéril. O magnificat é a forma mais jubilosa de ver o mundo como um milagre, de assistir à primavera, aos nascimentos e até às despedidas. Creio que Tu és o Verbo que se fez carne em Jesus e que habitou entre nós (Jo 1, 14). Porque não sei falar (escrever-Te) só queria mostrar as feridas das palavras varridas pela areia dos dias com que Te escrevo. Espero que, chegando à Páscoa, chegarei à palavra plena. Vou deixar de querer ver-Te: o Teu olhar me basta. Para os amantes, escrever foi sempre dizer: "Vem"! Que outra coisa poderia eu querer, escrevendo-Te?


Nasceu para o Céu a 5 de Maio 2011.

terça-feira, 12 de abril de 2011

YOUCAT - Catecismo Jovem da Igreja Católica

Acabei de passar algum tempo com o YOUCAT nas mãos. Está muito bonito, agradável, sintético e incisivo!
O Catecismo, seja ele qual for, é sempre jovem, porque a sua jovialidade e beleza vêm da adesão a Jesus Cristo, que é sempre jovem: cheio de novidade, encanto e vida.
Mas esta edição, coordenada pelo Cardeal Christoph Schoenboorn, actual Arcebispo de Viena, está com uma redacção e grafismo muito agradável. O facto de este Cardeal ter sido o Secretário Geral do Catecismo da Igreja Católica dá-nos a certeza de esta edição destinada aos jovens, par além dos conteúdos, mantém a dinâmica interna do CCE.
A editora Paulus, que o edita em Portugal, além de o traduzir adaptou-o também ao nosso contexto, através da escolha de imagens 'portuguesas'.
Mas mais do que o que eu diga, vejamos excertos a obra aqui.



segunda-feira, 28 de março de 2011

A Saúde Mental do portugueses

Alguns dedicam-se obsessivamente aos números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita de pessoas.
Recentemente, ficámos a saber, através do primeiro estudo epidemiológico nacional de Saúde Mental, que Portugal é o país da Europa com a maior prevalência de doenças mentais na população. No último ano, um em cada cinco portugueses sofreu de uma doença psiquiátrica (23%) e quase metade (43%) já teve uma destas perturbações durante a vida.

Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque assisto com impotência a uma sociedade perturbada e doente em que violência, urdida nos jogos e na televisão, faz parte da ração diária das crianças e adolescentes. Neste redil de insanidade, vejo jovens infantilizados incapazes de construírem um projecto de vida, escravos dos seus insaciáveis desejos e adulados por pais que satisfazem todos os seus caprichos, expiando uma culpa muitas vezes imaginária. Na escola, estes jovens adquiriram um estatuto de semideus, pois todos terão de fazer um esforço sobrenatural para lhes imprimirem a vontade de adquirir conhecimentos, ainda que estes não o desejem. É natural que assim seja, dado que a actual sociedade os inebria de direitos,criando-lhes a ilusão absurda de que podem ser mestres de si próprios.

Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque, nos últimos quinze anos, o divórcio quintuplicou, alcançando 60 divórcios por cada 100 casamentos (dados de 2008). As crises conjugais são também um reflexo das crises sociais. Se não houver vínculos estáveis entre seres humanos não existe uma sociedade forte, capaz de criar empresas sólidas e fomentar a prosperidade. Enquanto o legislador se entretém maquinalmente a produzir leis que entronizam o divórcio sem culpa, deparo-me com mulheres compungidas, reféns do estado de alma dosex-cônjuges para lhes garantirem o pagamento da miserável pensão de alimentos.

Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque se torna cada vez mais difícil, para quem tem filhos, conciliar o trabalho e a família.

Nas empresas, os directores insanos consideram que a presença prolongada no trabalho é sinónimo de maior compromisso e produtividade. Portanto é fácil perceber que, para quem perde cerca de três horas nas deslocações diárias entre o trabalho, a escola e a casa, seja difícil ter tempo para os filhos. Recordo o rosto de uma mãe marejado de lágrimas e com o coração dilacerado por andar tão cansada que quase se tornou impossível brincar com o seu filho de três anos.

Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque a taxa de desemprego em Portugal afecta mais de meio milhão de cidadãos. Tenho presenciado muitos casos de homens e mulheres que, humilhados pela falta de trabalho, se sentem rendidos e impotentes perante a maldição da pobreza. Observo as suas mãos, calejadas pelo trabalho manual, tornadas inúteis, segurando um papel encardido da Segurança Social.

Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque é difícil aceitar que alguém sobreviva dignamente com pouco mais de 600 euros por mês, enquanto outros, sem mérito e trabalho, se dedicam impunemente à actividade da pilhagem do erário público. Fito  com assombro e complacência os olhos de revolta daqueles que estão cansados de escutar repetidamente que é necessário fazer mais sacrifícios quando já há muito foram dizimados pela praga da miséria.

Finalmente, interessa-me a saúde mental de alguns portugueses com responsabilidades governativas porque se dedicam obsessivamente aos números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita de pessoas. Entretanto, com a sua displicência e inépcia, construíram um mecanismo oleado que vai inexoravelmente triturando as mentes sãs de um povo, criando condições sociais que favorecem uma decadência neuronal colectiva, multiplicando, deste modo, as doenças mentais.

E hesito em prescrever antidepressivos e ansiolíticos a quem tem o estômago vazio e a cabeça cheia de promessas de uma justiça que se há-de concretizar; e luto contra o demónio do desespero, mas sinto uma inquietação culposa diante destes rostos que me visitam diariamente.

Pedro Afonso
Médico psiquiatra



Público, 2010-06-21

sábado, 26 de março de 2011

Geração à Rasca

Um dia, isto tinha de acontecer.
Existe uma geração à rasca?
Existe mais do que uma! Certamente!

Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes as agruras da vida.

Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar com frustrações. A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também estão) à rasca são os que mais tiveram tudo.

Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos.

Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, a minha geração e as seguintes (actualmente entre os 30 e os 50 anos) vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós 1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor.

Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram nos seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles a geração mais qualificada de sempre (já lá vamos...), mas também lhes deram uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de diversão, cartas de condução e 1º automóvel, depósitos de combustível cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse. Mesmo quando as expectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuou presente, a garantir aos filhos cama, mesa e roupa lavada.
Durante anos, acreditaram estes pais e estas mães estar a fazer o melhor; o dinheiro ia chegando para comprar (quase) tudo, quantas vezes em substituição de princípios e de uma educação para a qual não
havia tempo, já que ele era todo para o trabalho, garante do ordenado com que se compra (quase) tudo. E éramos (quase) todos felizes.

Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desemprego ...
A vaquinha emagreceu, feneceu, secou.
Foi então que os pais ficaram à rasca.
Os pais à rasca não vão a um concerto, mas os seus rebentos enchem Pavilhões Atlânticos e festivais de música e bares e discotecas onde não se entra à borla nem se consome fiado.
Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante, para poderem continuar a pagar restaurante aos filhos, num país onde uma festa de aniversário de adolescente que se preza é no restaurante e vedada a pais.
São pais que contam os cêntimos para pagar à rasca as contas da água e da luz e do resto, e que abdicam dos seus pequenos prazeres para que os filhos não prescindam da internet de banda larga a alta velocidade, nem dos qualquercoisaphones ou pads, sempre de última geração.
São estes pais mesmo à rasca, que já não aguentam, que começam a ter de dizer "não". É um "não" que nunca ensinaram os filhos a ouvir, e que por isso eles não suportam, nem compreendem, porque eles têm direitos, porque eles têm necessidades, porque eles têm expectativas, porque lhes disseram que eles são muito bons e eles querem, e querem, querem o que já ninguém lhes pode dar!
A sociedade colhe assim hoje os frutos do que semeou durante pelo menos duas décadas.

Eis agora uma geração de pais impotentes e frustrados.
Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito por escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na proporção do que estudou. Uma geração que colecciona diplomas com que o país lhes alimenta o ego insuflado, mas que são uma ilusão, pois correspondem a pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidade operacional.

Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em sítio nenhum. Uma geração que tem acesso a informação sem que isso signifique que é informada; uma geração dotada de trôpegas competências de leitura e interpretação da realidade em que se insere.
Eis uma geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada por não poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso. Uma geração que deseja saltar as etapas da ascensão social à mesma velocidade que queimou etapas de crescimento. Uma geração que distingue mal a diferença entre emprego e trabalho, ambicionando mais aquele do que este, num tempo em que nem um nem outro abundam.

Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo como mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as foi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras.
Eis uma geração tão habituada ao muito e ao supérfluo que o pouco não lhe chega e o acessório se lhe tornou indispensável. Eis uma geração consumista, insaciável e completamente desorientada.
Eis uma geração preparadinha para ser arrastada, para servir de montada a quem é exímio na arte de cavalgar demagogicamente sobre o desespero alheio.

Há talento e cultura e capacidade e competência e solidariedade e inteligência nesta geração?
Claro que há. Conheço uns bons e valentes punhados de exemplos!
Os jovens que detêm estas capacidades-características não encaixam no retrato colectivo, pouco se identificam com os seus contemporâneos, e nem são esses que se queixam assim (embora estejam à rasca, como todos nós).

Chego a ter a impressão de que, se alguns jovens mais inflamados pudessem, atirariam ao tapete os seus contemporâneos que trabalham bem, os que são empreendedores, os que conseguem bons resultados académicos, porque, que inveja!, que chatice!, são betinhos, cromos que só estorvam os outros (como se viu no último Prós e Contras) e, oh, injustiça!, já estão a ser capazes de abarbatar bons ordenados e a subir na vida.
E nós, os mais velhos, estaremos em vias de ser caçados à entrada dos nossos locais de trabalho, para deixarmos livres os invejados lugares a que alguns acham ter direito e que pelos vistos - e a acreditar no que ultimamente ouvimos de algumas almas - ocupamos injusta, imerecida e indevidamente?!!!

Novos e velhos, todos estamos à rasca.
Apesar do tom desta minha prosa, o que eu tenho mesmo é pena destes jovens.
Tudo o que atrás escrevi serve apenas para demonstrar a minha firme convicção de que a culpa não é deles.

A culpa de tudo isto é nossa, que não soubemos formar nem educar, nem fazer melhor, mas é uma culpa que morre solteira, porque é de todos, e a sociedade não consegue, não quer, não pode assumi-la.
Curiosamente, não é desta culpa maior que os jovens agora nos acusam.

Haverá mais triste prova do nosso falhanço?

[recebi este texto por e-mail, dizendo-me que foi escrito por Mia Couto]

segunda-feira, 14 de março de 2011

A Geração Enganada!

Hoje discute-se muito o conflito das gerações. Existirá mesmo um grupo etário enganado e sacrificado? Estão actualmente vivas várias gerações em Portugal. Ainda é activa boa parte das pessoas que tinham 20 anos por volta de 1955. Essas não se podem considerar enganadas, porque ninguém lhes disse que ia ser fácil. Viveram a guerra colonial e a prosperidade da ditadura. Mas é bom lembrar que nessa prosperidade tratava-se, por exemplo, de terminar a electrificação nacional. Mesmo com emprego seguro e crescimento geral, tinham uma vida hoje inimaginável.
A geração seguinte tinha 20 anos por volta de 1975. Essa não conheceu a guerra, mas fez o 25 de Abril e aderiu à Europa. As descrições românticas do período heróico tendem a esconder o medo, a incerteza, os sacrifícios dessa época. O Portugal que no tempo do salazarismo se sabia atrasado e pobre, mesmo crescendo rápido, deixou de crescer e andou nas notícias mundiais devido à confusão. Depois as coisas acalmaram e fomos o "o bom aluno europeu". Mas também aí a geração não foi enganada, porque todos lhe diziam que seria difícil o desafio. E foi.
Seguem-se os que tinham 20 anos por volta de 1995. Esses, de facto, podem dizer-se uma geração enganada. Discursos, debates, projectos, planos prometeram que, chegando ao euro, tudo ia ser fácil. Bastava estudar alguma coisinha e haveria empregos bons e seguros. Eles acreditaram. Para depois descobrirem amargamente aquilo que pais e avós tinham sabido à sua maneira: a vida é dura e ninguém nos garante nada. É verdade que a vida hoje é muito menos dura do que foi nas décadas anteriores, cuja dureza já esquecemos. Mas a frustração não vem do que se vive. Vem da expectativa.
Existe depois a geração que tem hoje mais ou menos 20 anos. Essa já não é enganada. Discursos, debates, projectos e planos ainda lhes prometem o mesmo de antes, mas ninguém acredita. Notícias, canções, conversas de café e histórias de amigos não deixam ilusões. Esses, como os que fizeram a electrificação ou o 25 de Abril, sabem à partida que a vida vai ser muito dura. Mas, embora sem ilusões, ainda têm uma amargura que os antigos não tinham. Sentem-se com direito ao que sabem que não vão ter porque, de alguma maneira, admitem os tais discursos, embora em desespero.
Esta é a base da análise que anda por aí. Normalmente omite a terrível dureza da vida das duas primeiras gerações para se centrar na justa raiva das duas últimas. Assim motiva os protestos. Mas protestos porquê? Protestos contra quem? Será que vale a pena protestar contra a data do nosso nascimento? Contra a sociedade onde caímos? Quereríamos voltar atrás? Não podemos e, se pudéssemos, então era difícil convocar manifestações no Facebook!
Protestos porquê? Seria razoável os avós dos actuais jovens terem-se manifestado contra a má electrificação? Os pais protestarem por sermos mais pobres que a Europa? Eles fizeram muitas manifestações no seu tempo, por exemplo contra a guerra colonial. Mas aí havia um pedido concreto. Hoje o problema dos protestos é não saberem o que querem que se faça. Sabem o que pretendem, o mesmo que todos queremos. Mas, como todos, não sabem bem como lá chegar.
Protestos contra quem? Quem é responsável pelo actual estado de coisas? Vamos acusar as gerações anteriores? De quê? Da electrificação? Da democracia e adesão à Europa? De nos terem trazido o Facebook e darem casa aos filhos, porque o trabalho precário não lhes permite melhor?
Muita da irritação destas gerações é compreensível. Têm razão no protesto. Mas é bom lembrar que só há desilusão se antes houver ilusão. Foi o mito da vida fácil com dívida europeia que nos meteu a todos nesta crise. Nisso somos todos, mais ou menos, responsáveis. Um só grupo se pode dizer inocente.
Existe ainda uma geração entre nós: aquela que terá cerca de 20 anos em 2030. Esses não têm culpa nenhuma. Seria bom que, em vez de protestar contra o estado da nossa geração, todos nos esforçássemos por melhorar a deles, enfrentando este desafio como enfrentámos os anteriores.

João César das Neves   (DN 14-03-2011)

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Avaliar para projectar a Pastoral

Texto do Sr. D. Jorge Ortiga para os trabalhos do Conselho Pastoral Arquidiocesano. [o sublinhado é meu]

Permiti que inicie este encontro do Conselho Pastoral com as palavras do grande teólogo Karl Rahner:
As pessoas já não serão cristãs pela simples força do hábito, da tradição, da história ou da ordem estabelecida. Ainda menos, pelo facto da fé impregnar universalmente a sociedade. Pelo contrário, se exceptuarmos a influência exercida pelos pais cristãos, o ambiente familiar ou os pequenos grupos restritos, as pessoas já não serão capazes de ser cristãs, se não for graças a uma fé verdadeiramente pessoal que sem cessar deverão fazer crescer. A Igreja terá entrado, pela vontade do Senhor, Mestre da história, num tempo novo. Em todos os domínios ficará reduzida às únicas forças da fé e da santidade: não poderá contar quase nada com o prestígio de uma instituição puramente exterior. Não será já a instituição a formar os corações, mas sim os corações a fazer subsistir a instituição.”
Vivemos tempos novos. É um facto. Tempos que exigem atitudes renovadas pela força do Espírito Santo que nos impele a sair do Pátio de Jerusalém para o Pátio dos Gentios, Pátio do Encontro. Esta responsabilidade missionária recorda-nos essencialmente a novidade da transmissão da fé pelo testemunho pessoal do encontro transfigurante com Cristo. A Pastoral nunca poderá ser repetitiva, uma espécie de fotocópia com alterações de circunstância litúrgica ou canónica, mas deve sim reflectir a sua adequação à mudança dos tempos na fidelidade à memória cristã.
Definitivamente, e é preciso dizê-lo de forma clara, já não estamos em tempo de cristandade, de agirmos segundo critérios e opiniões meramente pessoais. Sem darmos conta caímos facilmente no relativismo eclesial, em que cada um faz dos seus gostos pessoais critério absoluto de toda a pastoral. O que de si é já um paradoxo que S. Paulo denuncia: “Quando, pois, vos reunis, não é a ceia do Senhor que comeis, pois cada um se apressa a tomar a sua própria ceia […] Por isso, meus irmãos, quando vos reunir para comer, esperai uns pelos outros” (1Cor 20.33).
A abertura aos novos tempos também não pode significar um apego acrítico e sem consistência. Significa, pelo contrário, duas atitudes constitutivas de um novo agir eclesial: a necessidade permanente de avaliar e a serenidade ousada de projectar o futuro. Não podemos ter medo de avaliar. É fácil elaborar Planos Pastorais, difícil é pararmos para reflectir o caminho andado e aceitar as deficiências e a responsabilidade por não ter atingido os objectivos.
Infelizmente constato que há comunidades que não só não se deixaram interpelar pelos objectivos propostos porque nunca ouviram falar das propostas diocesanas. Interrogo-me também se os nossos movimentos conseguem articular a peculiaridade do seu carisma com as orientações diocesanas? Se os Institutos Religiosos conseguem situar-se no nosso contexto enriquecendo-o com as suas potencialidades? Não quero formular nenhum juízo nem muito menos condenar alguém. Na sinceridade que preocupa um responsável pela Arquidiocese, só pretendo suscitar uma avaliação que manifeste verdadeira corresponsabilidade eclesial nos resultados que os três anos destinados à Palavra deixaram ou não na vida dos crentes e das comunidades cristãs.
Se avaliar exige frontalidade, o Conselho Arquidiocesano de Pastoral não pode eximir-se à responsabilidade de ver o futuro e projectar um itinerário que consolide as opções pastorais já delineadas no sentido de determinar uma evangelização capaz de congregar os cristãos em torno do anúncio da Boa-Nova do Reino. Todos sonhamos com uma Igreja renovada através de comunidades renovadas. Mas é preciso pensar primeiramente que Igreja somos e que queremos ser? Como vivemos a dimensão comunitária e pessoal da fé? Como acolhemos o “mistério” da revelação de Deus? Será que a secularização da sociedade secularizou a vida dos sacerdotes e dos leigos deixando-nos a mercê do sabor dos ventos da moda e do materialismo vazio? Como podemos continuar a falar do sentido de Deus se vivemos uma fé sem sentido nem assentimento? O tempo actual está ávido da esperança de Deus, que é fonte de toda a sabedoria e de toda a beleza.
Demos graças a Deus pela Igreja que somos e não fechemos o coração a Cristo que continua a bater no coração de cada pessoa. O Mestre quer entrar e cear connosco numa comunhão festiva que congregue a todos. Na alegria de fazermos festa não posso deixar de pedir às comunidades uma maior atenção às orientações económico-sociais de muitas famílias, à real situação de solidão em que muitos irmãos vivem, à perplexidade que caracteriza o presente de muita gente e se agrava num horizonte que parece não ter saída. O caminho da Igreja é dizer bem alto que há sentido na vida a partir de Deus.
Que o trabalho deste Conselho Pastoral, reunido para avaliar o caminho realizado até aqui e para pensar no amanhã, contribua para a renovação e para o fortalecimento da comunhão da Igreja bracarense.

Centro Cultural, 26-02-11

Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz





terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Deolinda - que parva que eu sou!




Deolinda - Parva que sou


Sou da geração sem remuneração
e não me incomoda esta condição.
Que parva que eu sou!
Porque isto está mal e vai continuar, 
já é uma sorte eu poder estagiar.
Que parva que eu sou!
E fico a pensar, 
que mundo tão parvo 
onde para ser escravo é preciso estudar.

Sou da geração ‘casinha dos pais’, 
se já tenho tudo, pra quê querer mais?
Que parva que eu sou
Filhos, maridos, estou sempre a adiar 
e ainda me falta o carro pagar
Que parva que eu sou!
E fico a pensar, 
que mundo tão parvo 
onde para ser escravo é preciso estudar.

Sou da geração ‘vou queixar-me pra quê?’ 
Há alguém bem pior do que eu na TV.
Que parva que eu sou!
Sou da geração ‘eu já não posso mais!’ 
que esta situação dura há tempo demais
E parva não sou!
E fico a pensar,
que mundo tão parvo 
onde para ser escravo é preciso estudar.

Afinal, Senhora Ministra, quem mente e quem manipula?

É pena que quem governa não tenha antes sujado as mãos na vida, nem comido pão amassado em suor e lágrimas. Ou, no poleiro do poder, depressa tenha esquecido a mão que o ajudou e a escola privada que lhe abriu caminho.

O problema das escolas privadas gratuitas merece ser reflectido por todo o país. A arbitrariedade do Governo PS que, a meio do ano, denuncia, unilateralmente, um acordo bilateral, mostra, no mínimo, a falta de respeito por quem luta, com seriedade, a favor do que é fundamental na sociedade, a educação escolar. Um dado ilustrativo de que o problema, agora na praça pública, pouco tem a ver com a crise económica, é saber quanto custam ao Estado as escolas estatais e as escolas privadas com contrato de associação com ensino gratuito. Pedi há tempos ao governo que nos dissesse isso mesmo, com dados exactos e verdadeiros. Nada, porque o governo só responde à Assembleia da República. Cidadão não tem que perguntar, apenas que pagar.

De repente, a Ministra da Educação e os seus zelosos colaboradores desatam a dizer que as escolas privadas ficam mais caras ao Estado que as escolas estatais. E aventam números e percentagens para apoiar as suas afirmações. Simplesmente, estes números são vergonhosamente manipuladas, porque os dados apreciados não são os mesmos. Ora vejamos: as escolas privadas, do que recebem do Estado, e só do Estado, pagam ordenados, fazem a manutenção diária, conservam os edifícios, assumem os encargos sociais… Se os alunos vêm de fora do concelho o transporte toca aos pais. A Ministra apenas faz contas ao que é mandado para as escolas estatais e que corresponde a pouco mais que os ordenados. Tudo o resto, e é muitíssimo, não entra nas suas contas Nem os encargos sociais, nem a manutenção e conservação dos edifícios, nem transportes dos alunos, que estes recaem nas autarquias. Mas mais ainda. O Ministério Estado recorre a uma empresa pública, a “Parque Escolar”, a esta paga todos os meses, em relação a muitas escolas, uma renda de ocupação, à média de 2 euros por metro quadrado. Isto quer dizer que o governo socialista, detesta as escolas privadas, mas está privatizando as escolas do Estado, passando-as para empresas públicas, apoiadas por capitais privados, ligados à Banca. Os encargos sociais nada têm a ver com as escolas estatais, porque estas não são empresas que tenham de responder, mensalmente, na parte que diz respeito à entidade patronal. Mais uma verba que não entra nas contas que a Ministra apresenta ao país, mas que é um encargo do Ministério, ou lá de quem quer que seja. A conclusão é óbvia: tudo isto corresponde a um encargo do Estado, muito acima daquele que tem com as escolas privadas, que decidiu  para já tornar inviáveis e ir matando, por via de uma criminosa asfixia. Agora Intimidando as mesmas escolas, a ministra ameaça e, pelos seus serviços vem fazendo que algumas, já sem saber o que fazer com este estrangulamento e incapazes de responder a encargos presentes, acabem por aceitar pressionadas, as condições do Ministério, sob a ameaça incrível de ou “assinas ou perdes tudo”. Esta foi sempre a forma de dialogar e de respeitar dos regimes totalitários e dos ditadores.

Edificaram-se, há pouco, escolas onde não havia necessidade delas, como se fossemos um país rico que pode esbanjar o dinheiro do povo, necessário para responder a problemas graves não resolvidos; desrespeitam-se um direito primordial dos pais; despreza-se, um contributo válido e concreto que vem qualificando a educação e o ensino; menosprezam-se experiências avalizadas; deixa-se que, a pretexto da crise económica, que se repitam erros lamentáveis do passado, fazendo assim o jeito aos jacobinos de 2011… Um autêntico desgoverno de um governo acossado pelos disparates cometidos e a virem aí ao de cima, em catadupa. A Ministra da Educação, de cabeça perdida, porque o chefe assim manda, atreve-se a dizer ao país, usando todos os meios, coisas impensáveis, que não diria uma qualquer pessoa sensata, respeitadora das pessoas e das instituições, e conhecedora da realidade. E que diz ela mais? “Que o Estado não tem que pagar nem luxos, nem privilégios, nem piscinas, nem campos de golfe e de equitação!…” Não sei quantas escolas privadas, com contrato de associação, conhece a senhora ministra com este estendal a significar, como diz, luxos e privilégios.

Procure saber, é o mínimo decente, as escolas onde existem tais equipamentos, quem os fez e os paga, qual seu alcance educativo, se são propostas da escola a favor dos alunos e da família, e não atire pó aos olhos de ninguém, porque já ninguém de juízo suporta tais aleivosias. Isto chama-se demagogia. Sabe como e porque as escolas que quer calar e fechar, procuram fazer sempre mais e melhor pelos alunos, mormente em zonas mais pobres? Não sabe, porque, se soubesse, não dizia o que disse. Pois, faz-se poupando e administrando bem o que, por direito, se recebe, sem sacrificar o essencial; concorrendo a programas de apoio de cá e de fora; promovendo o voluntariado dos pais, dos professores e das comunidades locais; realizando com os pais iniciativas diversas na comunidade circundante. É evidente que as escolas estatais não precisam de fazer nada disto. O Estado patrão paga e, se ele não paga, não há nada para ninguém. Ou, então e não raro, as escolas estatais recorrem ao favor das privadas próximas… A Ministra ainda não percebeu a justa indignação dos mal tratados e dos injustiçados, mormente dos pais, dos alunos, dos professores, porque nunca passou por isso. É pena que quem governa não tenha antes sujado as mãos na vida, nem comido pão amassado em suor e lágrimas. Ou, no poleiro do poder, depressa tenha esquecido a mão que o ajudou e a escola privada que lhe abriu caminho.

Depois, vêm as afirmações usuais que denunciam a pobreza da democracia que aí temos, e são a prova de que é real a opção pela ditadura: o Estado responde a tudo, as escolas privadas são supletivas, os pais se querem luxos, então paguem-nos…” Diálogo, respeito, reconhecimento de trabalho feito e de serviço prestado às comunidades? Mas que é isso? Os alunos interrompem projectos, mudam de professores com o ano em curso, distribuem-se pelas escolas estatais, mesmo que sejam fora do concelho e longe das suas terras? Não há problema.  O Estado Social (!) encarrega-se de tudo e, então, paga tudo. Já se viu maior loucura? Não há dúvida que somos ainda mais pobres do que julgamos. Os governantes devem ser modelos de vida, de educação, de respeito pelas pessoas e instituições e pela verdade que devem ao país. Não é isso que se vê hoje em muitos casos, mormente quando não têm razão no que decidem, nem dignidade para reconhecer que a não têm.

 Acompanho, de há muito, com atenção e cuidado, os problemas da educação, da escola, da família, do país. Luto por esta causa por fidelidade às pessoas e aos princípios e valores que nos devem nortear e dignificar. Nunca esperei que passados mais de trinta anos de democracia, nos quedassem num patamar, tão pobre e infeliz. Mas não podemos cruzar os braços, nem desistir. A razão não é a da força do poder. A mediocridade beneficia sempre das omissões e das desistências, quando outro mérito não há para poder progredir com verdade e governar com justiça.

Carta Aberta de António Marcelino, bispo emérito de Aveiro