domingo, 28 de setembro de 2008

Cristão Adulto - V


O Cristão tem em Jesus Cristo o sentido da vida

A questão do sentido une todos os homens. Ter uma vida com sentido é a profunda inquietação que também hoje se sente. O problema agudiza-se ainda mais quando se torna evidente que nada do que se faz parece ter valor. Perante a morte e o problema do antes e do depois, não se pode deixar de colocar a questão do sentido. E quando a sede de sentido se agudiza, pode chegar-se ao desespero, ao sem sentido.
A resposta à questão do sentido era, normalmente, herdada do ambiente familiar, social ou religioso circundante. Houve, pois, uma infinidade de sentidos, desde os primórdios da humanidade até hoje. Exemplos disso são a história das religiões, da filosofia e da literatura. E mesmo da arte.

Sede de absoluto
Perante as diversas vagas de sentido, que chegam até a contradizer-se, surge a inevitável pergunta se não haverá um verdadeiro sentido que acabe por valer de facto a pena viver?
O cristão adulto vive a sede de absoluto, que não se realiza plenamente por esta vida, sem contudo negar a possibilidade de vir a realizar-se. Perante a morte, a radicalidade do problema humano faz emergir na consciência a aspiração que habita cada pessoa: realizar-se infinitamente. «Queria era sentir-me ligado a um destino extrabiológico, a uma vida que não acabasse com a última pancada do coração»(Miguel Torga).
A partir da morte pode reconhecer-se, também, a impotência do homem para construir sozinho a sua realização. «O homem é um animal compartilhante. Necessita de sentir as pancadas do coração sincronizadas com as doutros corações, mesmo que sejam corações oceânicos, insensíveis a mágoas de gente. Embora oco de sentido, o rufar dos tambores ajuda a caminhar. Era um parceiro de vida que eu precisava agora, oco tambor que fosse, com o qual acertasse o passo da inquietação»(Miguel Torga).
O adulto na fé reconhece que a vida terrena — projecto e aspiração a ser mais — tem sentido e abre a possibilidade da esperança de um futuro transcendente. A descoberta do sentido para a vida, integrando o sentido da morte, revela a precariedade e a finitude de uma vida sobre a qual assenta o desejo de absoluto que se espera. É a descoberta da liberdade ansiada, aquela que se tem devido a uma liberdade transcendente. O desejo de liberdade infinita do homem dá lugar à descoberta da condição de possibilidade da liberdade humana: Deus. A realização humana surge a partir do ser pessoa, da relação.

Cristo fonte de sentido
Mas o sentido é um dom, oferecido pelo mistério do Verbo encarnado. «Na realidade, o mistério do homem só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente. [...] Cristo, novo Adão, na própria revelação do mistério do Pai e do seu amor, revela o homem a si mesmo e descobre-lhe a vocação sublime»(GS 22). O mistério do homem revela-se através do mistério de Cristo, chamado a participar da sua filiação. Quando o homem descobre que é amado pelo Pai, em Cristo e através do Espírito, revela-se a si mesmo, descobre a grandeza de ser objecto da benignidade divina, receptor do amor do Pai revelado em Cristo. O mistério trinitário é o único capaz de realizar o homem, é o «mistério iluminador» do sentido. A expressão desse mistério faz-se pela vivência da comunhão, onde o ser com os outros impele para a solidariedade e para o diálogo.
Jesus Cristo, através da sua vida e pregação, é o mediador do sentido, o único intérprete dos problemas humanos. Em Cristo, os cristãos podem compreender-se, realizar-se e superar-se continuamente.
Em Jesus Cristo, cada ser humano, realiza-se e plenifica-se. O ser insaciado sacia-se. Aquilo que o homem é e o que anseia por ser têm um espaço de convergência e realização: Jesus Cristo.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Cristão Adulto - IV


A alegria de ser cristão


A alegria e o gozo de viver a palavra de Deus são características próprias de um cristão adulto.
Há diversos tipos de alegria, diversos graus. Mas só se pode falar em alegria no sentido estrito, quando o ser humano, a nível das suas faculdades superiores, encontra a satisfação e possui um bem conhecido e amado. De acordo com este ensinamento de S. Tomás de Aquino, e vendo as potencialidades desta afirmação, o Papa Paulo VI, na exortação apostólica Gaudete in Domino, afirma que o ser humano não só pode sentir e experimentar as alegrias humanas quando está em contacto e comunhão com a natureza e com a humanidade, mas também pode atingir o grau mais elevado de felicidade que é a alegria da comunhão com Deus. Aí, o ser humano conhece a alegria e a felicidade espiritual quando o seu espírito entra em comunhão com Deus, conhecido e amado como bem supremo. A alegria verdadeira não provém dos prazeres efémeros nem das certezas do mundo, mas sim da vida espiritual, pois é um fruto do Espírito.

Alegria Cristã

A alegria cristã é por sua essência uma participação espiritual da alegria insondável – simultaneamente divina e humana – do Coração de Jesus glorificado. Através da oração pode experimentar-se mais profundamente esta grande alegria: cada cristão sabe que vive de Deus e para Deus.
E ninguém é excluído deste chamamento universal à felicidade, na sua vida concreta. É a partir da vida no Espírito, que os discípulos de Jesus Cristo são chamados a participar da alegria divina, alegria essa que se fundamenta na participação no amor trinitário. Jesus quer que sintam dentro de si a sua mesma alegria em plenitude: “Eu revelei-lhes o teu nome, para que o amor com que tu me amaste esteja neles e eu também esteja neles’” (Jo 17, 26).

O caminho das Bem-aventuranças

Estar dentro do amor de Deus é uma possibilidade que se realiza nesta vida concreta, através da opção pelas coisas do Reino. Claro que pode obrigar a um caminho difícil, mas é o único que leva à verdadeira alegria: o caminho das Bem-aventuranças.
As “Bem-aventuranças traçam a imagem de Cristo e descre­vem sua caridade; exprimem a vocação dos fiéis associados à glória de sua Paixão e Ressurreição; iluminam as acções e atitudes características da vida cristã; são promessas paradoxais que sustentam a esperança nas tribulações; anunciam as bênçãos e re­compensas já obscuramente adquiridas pelos discípulos; são ini­ciadas na vida da Virgem Maria e de todos os santos”( CIC 1717).
Convém ter presente que a alegria do Reino feita realidade, não pode brotar senão da celebração conjunta da morte e ressurreição do Senhor. É o paradoxo da condição cristã que tem em Jesus Cristo o seu esclarecimento. À luz do novo Adão, os sofrimentos e dificuldades não são eliminados, mas adquirem um novo sentido, porque há a certeza de participar na redenção realizada por Jesus Cristo e participar da Sua glória.
O cristão, por muitas dificuldades que enfrente, desde que esteja inserido na comunhão de amor trinitário, sente sempre a alegria divina, pois participa do amor de Deus(cf Jn 17, 25-26). Esta consciência leva-o a ser sal e luz do mundo, anunciando a Boa Nova com alegria. Deste modo não sucumbirá à falta de fervor, que se manifestaria no cansaço, acomodação, desinteresse e desilusão. Antes se revigora continuamente com verdadeiro fervor espiritual.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Cristão Adulto II

A vida adulta é entendida muitas vezes como uma fase de estabilidade, pelo que essa estabilidade é, ela mesma, uma característica de maturidade.
Vamos, pois, ao longo deste texto, percorrer os aspectos nucleares do adulto, vendo-os na sua dimensão também espiritual e religiosa.

Pessoa unificadaUm adulto é alguém que já fez uma primeira unificação da sua personalidade. Todas as dimensões da sua personalidade estão harmoniosamente interligadas. Um cristão adulto faz esta harmonização a partir da sua decisão livre de aderir a Jesus Cristo, pela fé. Esta conversão compromete livremente a cada pessoa que vai adequando a sua conduta na direcção daquilo que vai descobrindo como vontade de Deus. A vida do cristão adulto não é fruto de um determinismo circunstancial, mas sim de um permanente exercício de liberdade. Escolher, em cada caso, de acordo com a vontade de Deus implica o manuseamento de muitas variáveis. Este exercício de discernimento é fruto e gerador de uma personalidade crente equilibrada e madura.

Com convicções

A liberdade e entrega do adulto, geradores de profundas convicções, leva-o a viver com estabilidade, e não ao sabor dos acontecimentos. A coerência cristã deriva das profundas convicções evangélicas que dão forma a uma fé adulta.
Embora o Cristianismo não se reduza a uma mensagem ou a um conjunto de conhecimentos, o adulto assimilou uma estrutura de conteúdos de fé capaz de dar consistência às atitudes e aos comportamentos.
Este maturidade é fruto de um itinerário de crescimento, já realizado, no seio de uma comunidade cristã, acompanhado por um catequista, e onde a sua vida pessoal foi e é relida à luz do Acontecimento pascal de Jesus Cristo.

Responsável
O adulto é responsável e sabe-se consciente por todas as dimensões da sua vida e atitudes, pelo que o seu assumir da vida cristã implica a vivência de uma vocação. A vocação faz de cada cristão responsável por um projecto de vida, fiel à sua identidade de filho de Deus. Este compromisso deriva da sua identificação com o ser e a missão da Igreja, que se traduz no cumprimento da sua responsabilidade eclesial na circunstância e condição a que o Senhor o chamou.
Como membro de uma comunidade, o cristão vive em Igreja, comprometido com o Reino de Deus: é um ser socializado. Por isso, é capaz de estar inserido no mundo, nos diversos âmbitos – família, cultura, economia, política e outras –, como seguidor de Jesus Cristo, colaborando com todas as pessoas para a construção de uma sociedade mais justa e fraterna.

E Humilde

O adulto é também aquele que vive adaptado à realidade que o circunda e às suas próprias capacidades. Esta tomada de consciência dá ao cristão adulto uma convicção firme da sua humildade, que não é falso comodismo, mas sim o assumir que só com a graça de Deus é capaz de viver a sua fé, fiel e livremente.
Sabe-se criatura diante do Criador, filho de Deus Pai. Reconhece que só em Cristo pode obter a salvação e que a sua santificação é resultado da acção do Espírito Santo.
Esta relação com Deus dá ao crente a capacidade de perceber a sua própria vida e a história da humanidade integradas na realização de um projecto que não é seu, mas de Deus. É a referência a este projecto que vai dando sentido e significado aos acontecimentos, mesmo aqueles que parecem negativos podem ser assumidos à luz desta visão mais ampla.
É também à luz deste projecto amplo e global, que tem Deus como origem e meta, que o adulto encontra resposta e sentido para as grandes perguntas existenciais que reiteradamente atormentam o ser humano.

Cristão Adulto III

Vida em Cristo, espiritualidade teologal

A maturidade cristã implica que cada cristão possua uma comunhão íntima com Cristo, levando-o a expressar o amor salvífico de Deus.
Este objectivo é alcançado através de um vida espiritual profunda, sendo a vida espiritual o desenvolvimento da vida de Deus em cada pessoa criada, amada e salva por Deus. O progresso espiritual encaminha para uma mais íntima união com Cristo. Desta união relacional brota a compreensão das virtudes teologais.
As virtudes humanas, as qualidades de cada pessoa, radicam nas virtudes teologais, que adaptam as faculdades do ser humano à participação na natureza divina. De facto, “as virtudes teologais referem-se directamente a Deus e dispõem os cristãos para viverem em relação com a Santíssima Trindade. Têm Deus Uno e Trino por origem, motivo e objecto”(CCE 1812).
As virtudes teologais são infundidas por Deus nos seus fiéis, para que sejam capazes de proceder como filhos de Deus. São “o penhor da presença e da acção do Espírito Santo nas faculdades do ser humano”(CCE 1813).


A fé é a virtude teologal pela qual cremos em Deus e em tudo o que Ele disse e revelou, e que a Igreja transmite(Cf CCE 1814). A fé é alimentada quotidianamente com o Evangelho e“é garantia das coisas que se esperam e certeza daquelas que não se vêem. Foi por ela que os antigos foram aprovados”(Hb 11, 1-2). Por isso, mesmo que a fé comporte uma atitude de procura humilde e corajosa, fundamenta-se na Palavra de Deus que não se engana e é sobre esta rocha firme que edificamos a Igreja. Cada cristão possui, então, certezas simples e sólidas que hão-de ajudar a procurar um cada vez maior conhecimento do Senhor.
Deus mostra a Sua fidelidade porque cumpre sempre a Sua Palavra, mesmo quando há oposição ou indiferença; tem confiança no homem, no Seu povo e acredita nas suas possibilidades; e ama o Seu povo com amor de esposo, sempre fiel. É este acreditar no Deus fiel que dá segurança a o cristão, mesmo no meio das dificuldades e incompreensões.

Esperança
A esperança é a virtude teologal pela qual desejamos o Reino dos Céus e a vida eterna como nossa felicidade, por isso pomos toda a nossa confiança nas promessas de Cristo, apoiados não nas forças humanas, mas na acção do Espírito Santo(Cf CCE 1817).
O cristão vê com esperança a acção de anunciar a Palavra de Deus, sabendo que “o Reino de Deus é como um homem que lançou a semente à terra. Quer esteja a dormir, quer se levante, de noite e de dia, a semente germina e cresce, sem ele saber como”(Mc 4, 26-27). A esperança, como virtude teologal, fundamenta-se apenas em Deus e na Sua Palavra. É um dom do Espírito Santo: “Que o Deus da esperança vos encha de toda a alegria e paz na fé, para que transbordeis de esperança, pela força do Espírito Santo”(Rm 15,13).

Caridade

A caridade é a virtude teologal que torna o cristão capaz de amar a Deus sobre todas as coisas por Ele mesmo, e ao próximo como a nós mesmos, por amor de Deus(Cf CCE 1822). A caridade orienta-se sempre para Deus, dando-O a conhecer aos irmãos.
A caridade, o amor a Deus e, nele, aos irmãos, não é mais do que a resposta Àquele que nos amou primeiro. “O amor de Deus manifestou-se desta forma no meio de nós: Deus enviou ao mundo o seu Filho unigénito, para que, por Ele, tenhamos a vida. É nisto que está o amor: não fomos nós que amámos a Deus, mas foi ele mesmo que nos amou e enviou o seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados. Caríssimos, se Deus nos amou assim, também nós devemos amar-nos uns aos outros”(1Jo 4,9-11). Em Cristo ficámos a conhecer o amor de Deus, como é, e n’Ele somos convidados e viver de acordo com esse amor. A caridade cristã é, então, um dom do Pai, que se manifesta especialmente na solidariedade(cf Flp 2,1-11) e no serviço aos demais, nomeadamente aos pobres e abandonados.
Ora, esta virtude, a caridade, precisa de ser continuamente alimentada pela vida de comunhão com o Senhor, o que se consegue através da oração e da liturgia sacramental. Os sacramentos, e em especial a Eucaristia, “comunicam e alimentam aquele amor para com Deus e para com os homens”(LG 33).