quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Não me sai da cabeça

É assim: na actividade catequética temos muito claros os conteúdos, a referência é o Catecismo da Igreja Católica; sabemos muito bem que itinerário seguir e que estratégias utilizar, os dez anos de caetquese estão aí e a funcionar em pleno em quase todas as paróquias.

Mas o problema é sabermos que tipo de cristão queremos formar.Eu sei que o Directório Geral da Catequese fala lá da finalidade da catequese que é, passo a citar, «precisamente isto: favorecer uma profissão de fé viva, explícita e actuante.
Para alcançar esta finalidade, a Igreja transmite aos catecúmenos e aos catequizandos a sua fé e a sua viva experiência do Evangelho, a fim de que estes a assumam como sua e, por sua vez a professem. Por isso, a catequese autêntica é sempre iniciação ordenada e sistemática à revelação que Deus fez de Si mesmo à humanidade, em Jesus Cristo. Esta revelação permanece na memória profunda da Igreja e nas Sagradas Escrituras, e é constantemente comunicada, por uma tradição (traditio) viva e activa, de geração em geração»(DGC 66).

A Igreja espera que a finalidade da catequese seja conseguida através das suas quatros tarefas: iniciar à fé conhecida, celebrada vivida e orada, na Comunidade e com sentido missionário. Até aqui é claro.
Mais adiante, o referido Documento diz que a catequese, com a ajuda das ciências humanas, deve procurar que «os fiéis sejam conduzidos a uma vida de fé mais pura e adulta» (DGC 242).

Donde se pode concluir que a catequese tem como ideal formar cristãos adultos!

E o que é um cristão adulto?

Aqui permito-me dizer coisas erradas, esperando que me corrijam e ajudem a caminhar.

Um adulto é uma pessoa que tem a sua personalidade unificada, pelo que um cristão adulto é alguém que, num espaço de decisão pessoal, se compromete livremente pela causa do Reino. Desta liberdade derivam convicções evangélicas estáveis, com coerência cristã.
A pessoa madura é responsável pela totalidade da sua vida, assume todos os aspectos da sua vida, pelo que um cristão adulto vê a sua adesão a Deus implicar cada dimensão da sua vida e da sua personalidade.
Um adulto é alguém socializado e adaptado à realidade, que não foge da vida. Um cristão adulto será sempre alguém que vive em Igreja, comprometido com o Reino de Deus, numa permanente atitude de humildade.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Poder descansar

Os discípulos colocaram a Jesus o problema do stress e do descanso.
Os discípulos regressavam da primeira missão, muito entusiasmados com a experiência e com os resultados obtidos. Não paravam de falar sobre os êxitos conseguidos. Com efeito, o movimento era tanto que nem tinham tempo para comer, com muitas pessoas à sua volta.
Talvez esperassem ouvir algum elogio por tanto zelo apostólico. Mas Jesus, em vez disso, convida-os a um lugar deserto, para estarem a sós e descansarem um pouco.

Creio que nos faz bem observar neste acontecimento a humanidade de Jesus. A sua acção não dizia só palavras de grandeza sublime, nem se afadigava ininterruptamente por atender todos os que vinham ao seu encontro. Consigo imaginar o seu rosto ao pronunciar estas palavras.
Enquanto os apóstolos se esforçavam cheios de coragem e importância que até se esqueciam de comer, Jesus tira-os das nuvens. Venham descansar!
Sente-se um humor silencioso, uma ironia amigável, com que Jesus os traz para terra firme. Justamente nesta humanidade de Jesus torna-se visível a divindade, torna-se perceptível como Deus é.
A agitação de qualquer espécie, mesmo a agitação religiosa não condiz com a visão do homem do Novo Testamento. Sempre que pensamos que somos insubstituíveis; sempre que pensamos que o mundo e a Igreja dependem do nosso fazer, sobrestimamo-nos.
Ser capaz de parar é um acto de autêntica humildade e de honradez criativa; reconhecer os nossos limites; dar espaço para respirar e para descansar como é próprio da criatura humana.

Não desejo tecer louvores à preguiça, mas contribuir para a revisão do catálogo de virtudes, tal como se desenvolveu no mundo ocidental, onde trabalhar parece ser a única atitude digna. Olhar, contemplar, o recolhimento, o silêncio parecem inadmissíveis, ou pelo menos precisam de uma explicação. Assim se atrofiam algumas faculdades essenciais do ser humano.

O nosso frenesim à volta dos tempos livres, mostra que é assim. Muitas vezes isso significa apenas uma mudança de palco. Muitos não se sentiriam bem se não se envolvessem de novo num ambiente massificado e agitado, do qual, supostamente, desejavam fugir.
Seria bom para nós, que continuamente vivemos num mundo artificial fabricado por nós, deixar tudo isso e procurarmos o contacto com a natureza em estado puro.

Desejaria mencionar um pequeno acontecimento que João Paulo II contou durante o retiro que pregou para Paulo VI, quando ainda era Cardeal.
Falou duma conversa que teve com um cientista, um extraordinário investigador e um excelente homem, que lhe dizia: "Do ponto de vista da ciência, sou um ateu...".
Mas o mesmo homem escrevia-lhe depois: "Cada vez que me encontro com a majestade da natureza, com as montanhas, sinto que Ele existe".

Voltamos a afirmar que no mundo artificial fabricado por nós, Deus não aparece. Por isso, temos necessidade de sair da nossa agitação e procurar o ar da criação, para O podermos contactar e nos encontrarmos a nós mesmos.

[Card. J. Ratzinger, Esplendor da Glória de Deus, Editorial Franciscana, 2007, pág. 161.]