sábado, 30 de julho de 2005

Direitos Humanos e Sagrada Escritura

É um dado claro que a Sagrada Escritura não usa o vocabulário actual, mas coloca alguns dados através dos quais se pode deduzir o desenvolvimento de uma doutrina sobre a dignidade e os direitos da pessoa humana.
O fundamento da vida moral e social do povo de Israel é a aliança entre Deus e as suas criaturas. Na misericórdia em relação aos pobres, Deus mostra a sua justiça e exige a obediência dos homens às suas instituições. Desde o seu começo, a Bíblia proclama que a fidelidade de Yahweh à Aliança tem como contrapartida a fidelidade recíproca do povo. Nesta observância da lei está incluída a atenção aos direitos dos outros homens no que diz respeito à vida, à honra, à verdade, à dignidade do matrimónio, ao uso e posse de bens próprios.
Aos direitos das pessoas correspondem as obrigações e os direitos dos outros, como mostrará mais tarde o apóstolo Paulo, resumindo na caridade o sentido mais profundo da segunda parte do Decálogo do Antigo Testamento.
É no mesmo Antigo Testamento que os profetas falam da urgência da observância das condições da aliança no mais íntimo do coração (Jr 31,31-39; Ez 36), protestando com vigor contra as injustiça, quer das nações, quer dos indivíduos. Prepararam a esperança da salvação para aquele povo num Salvador futuro.
Jesus Cristo, por seu turno, pregou e anunciou na sua pessoa e com a sua obra o Reino de Deus. Jesus quis mostrar aos seus onde se encontra a verdadeira dignidade humana: num coração novo e num espírito renovado. Pede aos seus discípulos a «metanóia» e anuncia-lhes a nova justiça com a qual devem imitar o Pai(Mt 5, 48; Lc 6, 36), tendo como consequência tratarem todos os homens como irmãos.
Na sua acção concreta, Jesus Cristo privilegiou os pobres e indigentes, e recusou a dureza de coração dos soberbos e ricos que punham a confiança nos seus próprios bens. Na sua morte e ressurreição propugnou, com as apalavras e exemplos, a «pro-existência», ou seja, o dom supremo, o sacrifício da sua vida. Não considerou como algo que há-de ser avidamente arrebatado ter direitos divinos e humanos, mas recusou impô-los e assim se humilhou a si mesmo. Obediente até à morte, derramou o seu sangue numa aliança nova, para bem de todos.
Os escritos apostólicos mostram a Igreja fundada por Jesus como uma criação nova realizada pelo Espírito Santo. De facto, pela sua acção as pessoas humanas são dotadas da dignidade de filhos adoptivos de Deus.
Na relação com os outros, os frutos do Espírito são a caridade, paz, paciência, benignidade, bondade, mansidão. São recusadas as inimizades, as lutas, a ira, as contendas, seitas, inveja e homicídios(Gl 5, 19-23).
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quarta-feira, 27 de julho de 2005

A diversidade de uso da expressão «dignidade da pessoa humana»

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A dignidade da pessoa humana apresenta-se, nos nossos dias, de modo diverso. Para alguns, essa dignidade está baseada na autonomia total do homem, sem nenhuma relação ao Deus transcendente, chegando mesmo a negar a sua existência e o facto de ser o Criador.
Há outros que reconhecem valor intrínseco ao ser humano e a sua autonomia relativa, e postulam a liberdade pessoal. Contudo, põe o fundamento último na relação com a transcendência divina, mesmo que seja entendida de forma diversa.
Há ainda outros, finalmente, que põe principalmente a fonte e a significação do valor do homem, pelo menos depois do pecado, na incorporação em Jesus Cristo, Deus e Homem.

segunda-feira, 25 de julho de 2005

Direitos Humanos

A missão da Igreja é o anúncio do querigma da salvação obtida por todos, através de Cristo morto e ressuscitado.
Esta salvação tem a sua primeira origem no Pai, que enviou o Filho e se comunica com os homens concretos, como participação na vida divina, através do Espírito Santo.
À aceitação do querigma corresponde uma nova vida de fé. A graça implica uma conversão que tem muitas manifestações na vida concreta do crente, em qualquer campo de acção da pessoa que se converte a Cristo.
Por tudo isto, a Igreja não pode, no seu múnus de anuncia a Cristo, omitir na sua pregação a proclamação da dignidade e direitos da pessoa humana, que o cristianismo deve respeitar fielmente em todos os homens.
Este direito e esta obrigação do povo de Deus, de proclamar a dignidade da pessoa humana, reveste-se de uma especial urgência no nosso tempo, porque se vê uma carência muito grande de valores humanos e cristãos, por um lado, e por outro se toma cada vez mais consciência das injustiças realizadas contra a pessoa humana.
Felizmente, hoje, reveste-se de destaque especial a proclamação dos direitos humanos na pregação e na vida da Igreja.

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Andaremos por aqui nos próximos tempos...

segunda-feira, 18 de julho de 2005

Um Deus que não serve para nada!

No momento de planear a catequese, convém ter presente que o homem moderno julga viver num mundo como se Deus não existisse. Negou a existência de um deus repressivo, frente ao qual o homem fica sem espaço para existir. Contudo, não olhou para o verdadeiro Deus que, não sendo um relojoeiro nem um vingador, se revela como um Deus que, sem perder a identidade, se coloca livremente ao serviço do homem.
A ciência está a desenvolver-se de um modo que a ética é interpelada, alertando para o respeito pela Humanidade, para os direitos e para a dignidade da pessoa humana. É, talvez, esta uma forma indirecta de colocar a questão de Deus na sociedade moldada pela tecnologia, onde a ciência e vista como a plenitude do ser humano, a sua salvação. Será a ciência capaz de responder às questões fundamentais do Homem integral? Fica a interrogação.
Por outro lado, possuímos modos próprios de escutar a realidade, para lhe descobrir os fundamentos e o sentido. Oscilamos e temos dúvidas, mas um observador imparcial poderá ver que estamos a caminhar para o retomo do religioso. Deus, que foi arrebatado das ciências deste século e para o qual Nietzsche anunciou a morte, está de volta nas interrogações do homem.
A admiração é o momento inicial de todo o conhecimento humano. Mas não é no espanto que o crente pode intuir a gratuidade de ser chamado à comunhão com Deus? A maravilha desta graça pode fazer surgir a interrogação sobre as razões da esperança. Nesta dinâmica, revela-se um homem como mistério, em abertura para o mundo, em busca de um sentido sempre maior.

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Deus, ocultado pelo pensamento autónomo, reaparece através da mediação interpessoal, pela admiração e pelo amor. É um Deus que está para além das categorias de necessidade, utilidade e contingência. Não será este o Deus da Sagrada Escritura que, mesmo revelando-se, mantém a sua identidade de totalmente Outro, que não se confunde com nenhuma realização humana?
Com a derrocada dos tradicionais pontos de partida para Deus, o cosmológico e o antropológico, torna-se claro que o homem moderno não precisa de Deus para explicar o cosmos e muito menos para implantar uma antropologia ou ética cheios de sentido. É precisamente aqui, num clima de secularização e indiferença religiosa, de expansão da ciência e da tecnologia, que se coloca a questão de Deus de uma forma totalmente livre e gratuita. Deus, não já como explicação, aparece, então, como dom.
A afirmação pós-moderna da não necessidade de Deus é precisamente o luxo supremo de toda a vida humana. Para os crentes, Deus é o luxo que procuram numa sociedade tecnológica e científica. Neste sentido, Deus é mais que necessário, mas sem se constituir em função da nossa sociedade.
Não nos sentimos nós atraídos por um amor que se atreve ao inútil, ao supérfluo e ao desnecessário? Não será que o Deus de Jesus Cristo necessita dos homens, não para ser Deus, mas sim para ser um Deus dos homens?

sexta-feira, 15 de julho de 2005

Movimentos Eclesiais e Catequese - VII

Os novos movimentos são dons eclesiais pela sua origem, vida e missão. Nascem na Igreja, vivem nela e existem para a missão que a Igreja tem no mundo. Por isso, estes movimentos caracterizam-se pela fidelidade à Igreja universal, através da fidelidade à Igreja particular, e pela fidelidade ao carisma. A autosuficiência de qualquer grupo carismático, será um «suicídio eclesiológico».
Os critérios de eclesialidade para estes movimentos não são específicos deles, antes pelo contrário, pertencem aos critérios de eclesialidade de todas as realidades eclesiais.

Recolheremos os critérios que João Paulo II apontava na Chritifideles Laici:
- primado da santidade;
- confissão íntegra da fé apostólica em obediência ao Magistério;
- comunhão firme e convencida com o Papa, centro perpétuo e visível da unidade universal da Igreja, e com o Bispo, princípio e fundamento visível da unidade na Igreja particular;
- participação na evangelização e santificação da humanidade;
- compromisso social ao serviço da dignidade integral do homem.

A comunhão com a Igreja é um sinal de maturidade cristã, que não se alcança de uma vez para sempre, nem é plenamente satisfatório desde o princípio. É um processo que se deve fazer; um caminho a percorrer; uma meta a alcançar por etapas.
Os novos movimentos eclesiais percorrem este caminho, tornando-se cada vez mais conscientes da necessária inter-relação no interior do Povo de Deus. Não pode ser de outro modo. Enquanto carismas que nasceram no interior da Igreja e que existem para ela, aspiram à plena comunhão eclesial, que chega à sua maturidade quando se explicita na comunhão teológica, afectiva e efectiva com o Bispo diocesano, o que leva a implicarem-se activamente nos programas e objectivos da Igreja local, a porem-se ao serviço do bem comum e a afastarem-se de qualquer falso protagonismo.

quinta-feira, 14 de julho de 2005

Movimentos Eclesiais e Catequese - VI

Estes novos movimentos revestem-se de umas características que, não sendo exclusivamente suas, mas pertencentes à riqueza da Igreja em geral, neles revestem-se de uma peculiaridade especial.

Estes movimentos são:

- Laicais, não só por estar integrados na sua maioria por leigos, mas sobretudo pela sua origem, espiritualidade e missão seculares;

- Comunitários pois, no seio da Igreja comunhão, estes movimentos constituem um forte convite à experiência de comunidade, expressão da comunhão que a Igreja é. Os novos movimentos querem oferecer aos seus contemporâneos o ambiente terno da casa do Pai;

- Primazia da experiência uma vez que a essência da comunhão com Deus é a experiência do encontro com o Senhor, geradora de uma gratificante conversão, que leva a uma relação com o Senhor e com os irmãos, da qual nascem correntes de água viva que revitalizam existencialmente a quem partilhada mesma experiência, convertendo-se, por sua vez, num oásis para a sociedade e para a Igreja. O cristianismo é, para os novos movimentos, muito mais que uma doutrina ou uma moral. O agir cristão é uma consequência da fé, não a sua essência;

- Missionários. Estes movimentos levam bem inserida na sua identidade a missão, pois como carismas são dom para os demais. Como comunidade, manifestada na comunhão de fé e de vida, existem para a missão que Cristo confiou à Igreja. Todos são responsáveis pela missão, de acordo com a sua vocação e carisma;

- Universais não só por estar em muitos países, terem muitos membros, mas sobretudo porque participam da catolicidade da Igreja;

- Ecuménicos, procurando a unidade, porque praticam um ecumenismo em sentido amplo, na sua predisposição de derrubar todo o que sejam barreiras entre países, raças ou culturas. Favorecem a vertente espiritual do movimento da unidade, sobretudo na oração inter-confessional e no ecumenismo de vida, convivendo com todos e trabalhando em acções a favor do homem e da sociedade. A oração e a vida, quando unidas, geram tal força de comunhão e de amor entre os que a partilham que ajudam e possibilita um certo degelo dogmático e doutrinal.

Para além destas características, podemos ainda sublinhar o facto de serem
mais carismáticas que organizacionais, primarem a gratuidade em detrimento da
eficácia e de manterem uma relação filial com o Papa.

quarta-feira, 13 de julho de 2005

Movimentos Eclesiais e Catequese - V

Não é só a Igreja pós-Vaticano II, também a sociedade contemporânea da pos-modernidade está a precisar da existência de estas novas realidades eclesiais. Esta sociedade de massas, com falta de intimidade, super-organizada e burocrática, sem gratidão e sem poesia, agressiva e tecnificada, torna difícil a existência das pessoas, incapazes de adaptar-se a um mundo em desenvolvimento permanente, bloqueado na sua afectividade, no seu psiquismo e na sua vontade de conviver.
Os novos movimentos e comunidades oferecem alternativas muito significativas à sociedade pós-moderna, tecnocrata, encerrada no raciocínio científico, que a reveste de consumismo, mas também à Igreja e às grandes religiões históricas, imersas em boa parte, no racionalismo ético-metafísico.
Estes novos movimentos situam-se nesta sociedade de duas maneiras: como fermento na massa e como mediação. Estes novos movimentos, enquanto laicais e peculiarmente seculares, estão chamados impregnar a sociedade do espírito cristão e a ser testemunhas do Senhor, a partir da sua inserção na comunidade humana.

terça-feira, 12 de julho de 2005

A não perder...

Para que acreditem e tenham vida

Nota da Conferência Episcopal Portuguesa oferece orientações para a catequese actual.

Paganização da cultura obriga a novos métodos catequéticos

Bispos portugueses dão orientações para catequese actual

Durante séculos, num contexto de cristandade, «a comunicação da fé passava quase espontaneamente de pais para filhos. O cristianismo fazia parte do património moral e cultural que se recebia da família e do ambiente. Hoje, porém, a transmissão da fé encontra dificuldades e levanta questões. Parece verificar-se menos abertura à fé tanto da parte das crianças e adolescentes como dos jovens e adultos» - reconhece a Nota da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) intitulada «Para que acreditem e tenham a vida» que oferece orientações para a catequese actual. Este documento da CEP, tornado público hoje mas aprovado na última Assembleia Plenária (23 de Junho), realça também que as dificuldades crescentes «na adesão ao Evangelho estão certamente relacionadas com as profundas transformações sócio - culturais que caracterizam um mundo novo. O modelo tradicional da comunicação da fé foi posto em causa no seio de uma sociedade pluralista, pluricultural, plurireligiosa e secularizada». E acrescenta: «também o racionalismo, a mentalidade científica e tecnológica produzem uma erosão do facto religioso. Estamos diante de uma mudança profunda, em alguns aspectos inédita em relação ao passado, que exige ser reconhecida e interpretada com urgência e lucidez». Perante estes factos, as «Orientações para a catequese actual» sublinham que à medida que a Igreja toma consciência da descristianização do ambiente social procura «responder a esta situação renovando a sua acção pastoral numa perspectiva de evangelização. Face ao alastrar da indiferença religiosa e à paganização da cultura e da vida, não basta manter as tradições e os hábitos cristãos e responder ao pedido de ritos religiosos». Torna-se necessário despertar a fé no «coração das pessoas, converter os baptizados que não conhecem ou não praticam o cristianismo, levar o evangelho aos afastados. É preciso começar a evangelizar pelo princípio, pôr em prática uma nova evangelização» - alerta.A catequese é um momento «estruturante da evangelização». Precisa, portanto, de ter presentes as características «da evangelização no mundo actual e situar-se neste processo com a sua identidade própria e o seu contributo específico». Para se tornarem evangelizadoras, as acções da Igreja devem ser realizadas «de uma forma renovada, em resposta à situação religiosa da nossa cultura. É necessário encontrar caminhos novos que levem ao encontro das pessoas afastadas, ouvir as suas questões e iluminá-las com o evangelho». Nesse sentido a catequese, no contexto da nova evangelização, deve revestir algumas características: «adoptar um caracter missionário procurando assegurar a adesão à fé. Para isso precisa de ir ao encontro da vida real dos catequizandos e de ter em conta as suas questões e experiências de modo a responder-lhes»; «Centrar-se no kerigma, ou seja, na pessoa de Jesus Cristo Ressuscitado e no Seu mistério de salvação. Jesus Cristo deve ser apresentado como Boa Nova, fonte de esperança e de sentido para a vida humana e para as questões das pessoas e da sociedade» e «Convidar constantemente a uma atitude de conversão ao Senhor em ordem ao crescimento na santidade pessoal e ao compromisso com o testemunho do Evangelho no mundo» - revela o Nota. Dividida em 7 pontos, o documento sobre as orientações para a catequese actual sublinha que durante muito tempo consideraram-se as crianças como «os destinatários privilegiados de catequese. Hoje esta actividade pastoral deve dirigir-se a todas as idades, pois todas as idades precisam de ser evangelizadas». Por outro lado, a situação cultural e religiosa da Europa exige a «passagem de uma fé apoiada na tradição social a uma fé mais pessoal e adulta, esclarecida e convicta». Só assim, os cristãos poderão «confrontar-se, criticamente, com a cultura actual e influir, eficazmente, nos vários sectores da vida social: cultura, economia e política» - menciona. Em relação ao papel desempenhado pelos catecismos, a nota veicula que estes são instrumentos para fazer catequese. «Desempenham uma função importante mas não são suficientes. Na verdade, a transmissão da fé assenta em vários outros elementos como o testemunho da Igreja, o exemplo de vida cristã da família e da comunidade local, o percurso pessoal de fé, a comunicação entre o catequista e catequizando, etc. Os catecismos são textos escritos de apoio que precisam de vida. É a comunidade cristã e o catequista quem dá vida ao catecismo».
in www.agencia.ecclesia.pt

Movimentos Eclesiais e Catequese - IV

Perante este fenómeno dos novos movimentos eclesiais e das novas comunidades, e da sua fecunda proliferação pela Igreja universal, podemos afirmar, com João Paulo II, que só é admissível aquela pluralidade que constitui «um hino à unidade».
Este princípio de unidade, que se deve sempre salvaguardar, e que deriva da comunhão na mesma fé, esperança e caridade, obedientes a Cristo e aos Pastores da Igreja; ou seja, pela comunhão no ser e no fazer da Igreja. Está é, indubitavelmente, a melhor chave de classificação dos movimentos, de entre as muitas que se poderia optar.

Objectivos e metodologia
Podemos desde já dizer que todos os movimentos coincidem nos objectivos gerais, que são a vivência experiencial da fé, a vivência em comunidade e o carisma dos seus fundadores. Isto tem como consequência que todos se esforcem por viver a perfeição da caridade, por construir a Igreja no tempo presente, edificando um mundo novo.
Depois, cada movimento, tem a sua peculiaridade, a sua forma específica de realizar estes objectivos. O que distingue um movimento do outro é a forma como cada um realiza os objectivos gerais, como os consegue concretizar.
No que diz respeito ao método, temos de ver que a essência do cristianismo é o acontecimento Cristo e a Sua Igreja: Cristo é o acontecimento original e a Igreja é a sua continuação no espaço e no tempo. O que os novos movimentos pretendem com os seus métodos é possibilitar o encontro com esse Acontecimento.
Se fosse preciso catalogar a metodologia seria catalogada como metodologia do encontro com Cristo, onde tudo o mais perde importância e é relativizado, procurando cada um viver o cristianismo na sua primeiríssima novidade.

Os principais passos desta metodologia são:
- encontro com o Senhor;
- deixar-se olhar pelo Senhor, e reconhecê-lo como Deus e Senhor;
- seguir a Cristo em radicalidade;
- num esforço missionário.
Se repararmos foi esta a metodologia que Cristo utilizou com os seus discípulos.

segunda-feira, 11 de julho de 2005

Movimentos Eclesiais e Catequese - III

Este fenómeno de renovação das novas comunidades tem a sua origem no Concílio Vaticano II, que vê na experiência comunitária da Igreja primitiva o modelo e a chave da renovação eclesial, uma vez que as novas comunidades são aqueles lugares nos quais se tem a satisfação de se encontrar, saudar, aceitar e viver como irmãos em Cristo. Para que sejam realmente comunidades eclesiais, Paulo VI na Evangelii nuntiandi, afirma que devem viver alimentadas pela Palavra, unidas à Igreja particular e universal, em comunhão com os seus pastores e comprometidos com o meio. Não devem ser sectárias, devem afastar toda a contestação sistemática e um espírito hiper-crítico.
Esta realidade das novas comunidades não surge por acaso, fundamenta-se em raízes antropológicas, teológicas, eclesiológicas e na Palavra de Deus.

Deste modo:

- Fundamento antropológico. O homem, desde as suas origens, foge da solidão essencialmente porque tem necessidade de intercâmbios e de sociabilidade;

- Fundamento teológico. Deus é um ser pessoal e comunitário, pelo que as novas comunidades, encarnadas nas realidades terrenas, oferecem ao homem e à sociedade o Cristo pascal, e ao realizar-se nelas o prodígio permanente do Pentecostes, contagiam a unidade e a fraternidade universais;

- Fundamento eclesiológico. A Igreja é a realização visível e misteriosa na terra da comunhão trinitária. É, em Cristo, sinal e instrumento da unidade de todo o género humano e da união de todos os homens entre si e com Deus. A Trindade vive na terra, mediante o seu sinal, o seu sacramento, que é a Igreja;

- Fundamento bíblico. Jesus teve claramente a vontade de fazer comunidade. A sua mensagem é claramente comunitária. Veio ao mundo para instaurar o Reino no qual se fizeram reais a paternidade de Deus e a fraternidade universal.

Como conclusão, podemos dizer que estas novas comunidades cristãs podem definir-se como um grupo de cristãos em comunhão eclesial, que partilham o que são, o que têm e o que fazem. Celebram e crescem na fé, abertos à missão, fundamentados no amor, vínculo que os une numa organização evangélica.

domingo, 10 de julho de 2005

Movimentos Eclesiais e Catequese - II

Denominam-se «movimentos», porque são uma expressão profunda do movimento eclesial, da Igreja movimento, mais do que uma actividade.
São «eclesiais» porque podem pertencer a eles cristãos provenientes das três vocações: leigos, consagrados e ordenados. Se bem que na sua grande maioria estão compostos por cristão leigos.

Identidade dos novos movimentos eclesiais
Estes movimentos são considerados como verdadeiros carismas do Espírito para o tempo presente. Têm a característica de estarem dotados de uma certa imprevisibilidade, mutabilidade, assombro, profunda novidade, gratuidade e liberdade. Não podia ser de outra forma, ao serem expressão da acção do Espírito Santo na Igreja.
Todos os novos movimentos eclesiais parecem coincidir nas seguintes características:

- São realidades eclesiais novas, preferentemente laicais, diferentes das precedentes ou contemporâneas associações laicais;

- De origem carismática, pois pertencem à vida e dinamismo da Igreja, não à sua estrutura ou dimensão institucional. Não vêm dadas, surgem inesperadamente conforme a liberdade e a imprevisibilidade do Espírito Santo;

- Com um forte impulso missionário numa sociedade secularizada. Têm como tarefa principal a missão no mundo, no qual se situam como testemunhas daqueles valores cristãos que o vendaval secularista arrasou;

- Nascidas em torno de um fundador, de forte personalidade carismática, que exerce uma forte atracção, testemunha privilegiado da fé, com uma oferta atraente e significativa, porque pessoa do Espírito;

- Com uma espiritualidade e metodologias próprias, inseridas dentro do grande tesouro que é a Igreja, mas concretizadas e com um toque especial, específico;

- Vivem o acontecimento cristão de modo excepcional. A grande novidade destes movimentos está na recuperação daquelas formas de ser cristão que foram esquecidas pela grande massa de cristãos. Tratam de encarnar na vida a Jesus Cristo, o Senhor, e de testemunhá-Lo desde essa experiência vital;

- Vivem no aqui e agora da Igreja. O rasgo mais característico destes movimentos é que vivem muito encarnados no tempo presente, com uma forte comunhão teológica, afectiva e efectiva com a Hierarquia, de modo especial com o Papa;

- Empenhados numa nova evangelização. O estar decididos a desempenhar tarefas de nova evangelização deriva do seu encontro existencial com o acontecimento Jesus Cristo, em comunhão com a Igreja.

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quinta-feira, 7 de julho de 2005

Movimentos Eclesiais e Catequese - I

É um dado claro, para quem vê a Teologia pós conciliar, que a perda de unidade da teologia é um dos maiores desafios que se coloca hoje ao pensamento cristão. Le Guillou tenta dar resposta a esta situação, propõe uma teologia do Mistério, capaz de devolver uma reflexão crítica e sistemática no horizonte onde o cristianismo nasceu: a recepção da Verdade revelada na história. A categoria de Mistério permite à reflexão teológica encontrar a unidade e o equilíbrio na confissão do cristocentrismo trinitário, capaz de inspirar uma acção verdadeiramente missionária e pastoral da Igreja. Esta é a verdadeira confissão apostólica.
O teólogo acima citado, escreve no seu livro O Mistério do Pai, em 1973, que «o certo é que a fidelidade ao testemunho trinitário que está presente no coração da Igreja e a congrega na unidade, é o que suscitou ao longo de séculos as comunidades de vida monástica e de vida apostólica nas quais germinou, apoiando-se, uma sobre a outra, a experiência pastoral e o aprofundamento teológico. Nos nossos dias, tal como no passado, há-se ser nestas comunidades onde a fé e a teologia se hão-de restaurar nos seus verdadeiros fundamentos. Mas, no futuro - continua Le Guillou -, será na comunicação de comunidades espirituais livres - que agrupem na vida do Espírito a homens e mulheres, sacerdotes, religiosos e leigos - onde se desenvolverão os caminhos de uma renovação espiritual, teológica e missionária, digna do chamamento profético do Vaticano II». Eu vejo aqui uma clara aposta nos Novos Movimentos Eclesiais, e no contributo que são chamados a dar à Igreja, onde todos os aspectos e perspectivas da Igreja devem ser vistos desde o prisma do Mistério Trinitário.
Estas novas organizações de apostolado secular, excepcionalmente dinâmicas, às quais se referia o Papa no ano de 1979, chegariam a ser denominadas pelo termo genérico de «movimentos», expressão que nem o Vaticano II nem o Código de Direito Canónico empregam ao referir aos cristãos leigos, pois falam mais de associações seculares. João Paulo II utilizou-a em 1981, referindo-se aos novos movimentos na Igreja que é, ela mesma, movimento. Na Redemtoris Missio(73) assinala como uma novidade surgida recentemente em não poucas Igrejas o grande desenvolvimento dos movimentos eclesiais, dotados de um forte dinamismo missionário.
Na Igreja movimento, estes movimentos sobressaem e chamam a atenção pela sua novidade e por um dinamismo espiritual, missionário e evangelizador; supõem uma forte interpelação para outras realidades eclesiais mais antigas e tradicionais que o tempo foi anquilosando e que a modernidade fez com que experimentassem uma amarga decepção de impotência, assim como a ineficácia dos seus métodos, ainda que tivessem algum desejo de evangelizar e não só de «manter a fé».

segunda-feira, 4 de julho de 2005

A Catequese com Crianças

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A catequese com crianças é abordada expressamente no número 37 da Catechesi Tradendae. Este número começa por referir a mudança na vida da criança, que deixa o âmbito estritamente familiar para se abrir socialmente, quer na escola, quer na Igreja. É tempo de começar a catequese orgânica, precisamente o contrário da anterior, a do despertar religioso, que é ocasional e de acordo com o que as circunstâncias da criança se propuserem. Esta catequese, agora, tem como objectivo introduzir a criança na vida da Igreja.
Esta iniciação tem a sua raiz no Baptismo, celebrado pouco tempo depois do seu nascimento. A esta etapa da catequese cabe a iniciação orgânica e sistemática, em ordem a uma primeira síntese de fé. A iniciação realiza-se em Igreja e é a ela que cabe essa missão, levada a cabo pelos catequistas. Estes são o referente comunitário, para a criança, que tem nele não só o referente, como também o meio e o método para chegar à plena iniciação cristã, através do testemunho.
A graça baptismal, donde partimos na catequese de infância ordinariamente, deve ser desenvolvida pelo catequizando, com a ajuda do catequista, de modo a conseguir-se a profissão de fé, elemento interior deste sacramento e objectivo da catequese(DGC 66).
Esta catequese inicial tem como objectivo a primeira síntese de fé, transmitindo à criança a fé que a Igreja confessa, celebra, vive e ora, tudo isto na comunidade e com o dever de dar testemunho(DGC 85-87). Por isso, esta catequese é didáctica, mas visando o testemunho de fé que a criança deve dar. Para isso, devem ser transmitidos todos os principais mistérios da fé e as suas repercussões na vida da criança. Salvaguarda-se que isto se deve acomodar à idade e às capacidades da criança.
Esta etapa catequética (DGC 178) deve proporcionar uma síntese elementar da história da salvação e um contacto com a Sagrada Escritura, deve também possibilitar que a criança seja capaz de levar uma vida de oração, quer pessoal quer comunitária. Que saiba participar nos sacramentos, nomeadamente na Eucaristia, de forma activa e frutuosa. Também se espera que a criança comece a agir com consciência cristã, vinculando a sua vida a Cristo e que, por isso, assuma opções concretas, conformes à .
Porque é eminentemente educativa, a catequese da infância deve preocupar-se por desenvolver aqueles recursos humanos que formam o substrato antropológico da vida cristã: são eles o sentido da confiança, a gratuidade, o dom de si mesmo e a participação alegre na vida de fé.
De referir também a catequese de iniciação não tem como objectivo a mera preparação para os sacramentos, mas sim promover que realizem um itinerário pessoal de vida cristã, no qual se inserem os sacramentos como momentos fortes do crescimento da fé. Os sacramentos são, isso sim, momentos fortes da maturidade cristã que a criança vai alcançando.
A catequese que dá sentido aos sacramentos possibilita também que eles sejam vividos numa dimensão vital. Por isso, a verdadeira catequese não se fica apenas na dimensão gnoseológica, antes impregna toda a vida da criança, todas as suas dimensões e capacidades, levando-a a viver com alegria a sua opção por Cristo, dando testemunho d?Ele no meio em que vive. A sua vida agora gira não só em torno da família, mas também no ambiente escola: dois ambientes educativos vitais.
A catequese familiar é, de certo modo, insubstituível, pois é aí que se pode verificar aquele ambiente acolhedor e positivo onde, pelo positivo dos adultos, se pode dar a primeira sensibilização explícita e prática de fé.
É à família que cabe a missão dos despertar religioso, mas isso nem sempre acontece, pelo que ao iniciar-se a catequese na paróquia se deve ter em especial atenção aqueles que não tiveram o despertar religioso, para que, com tacto e delicadeza, a comunidade paroquial saiba tratar convenientemente cada caso que, como é óbvio, deve merecer um tratamento especial.

sexta-feira, 1 de julho de 2005

Uma cultura com sentido

A sociedade actual é animada pela comunicação, e apesar de se terem descoberto nela limitações, contradições e práticas que a obrigam a adaptar-se e a transformar-se, muitas das suas estratégias permanecem ainda ocultas, ambíguas. Muitas das suas consequências são-nos ainda desconhecidas. É necessário compreendê-las, uma vez que a mentalidade resultante daqui modela a cultura, e os modos de pensar tornam-se diferentes dos do passado: a técnica progrediu tanto que transforma a face da terra e tenta já dominar o espaço.
O progresso que se faz sentir é imparável: a ciência e a técnica continuarão a desenvolver-se segundo uma lógica que lhes é imanente e necessária, na qual cada indivíduo é chamado a tomar responsabilidades. Importa achar os meios mais adequados para lhes limitar os danos. Assim, o mundo tecnológico apresenta-se como algo de enigmático aos nossos olhos, tanto mais que acarreta consigo um estado de crise preocupante. Esta é-o porque não tem paralelo com nenhuma época anterior. A especificidade desta vem-lhe da enorme mudança que a caracteriza.
A resposta à questão do sentido era, normalmente, herdada do ambiente familiar, social ou religioso circundante. Há, pois, uma infinidade de sentidos, desde os primórdios da humanidade até hoje. Exemplos disso são a história das religiões, da filosofia e da literatura. E mesmo da arte. Hoje não é assim.
Perante as diversas vagas de sentido, que chegam até a contradizer-se, surge a inevitável pergunta se não haverá um verdadeiro sentido que acabe por se impor? Pode surgir a postura que reconhece o homem sedento de absoluto, que não se realiza nesta vida, sem contudo negar a possibilidade de vir a realizar-se. Perante a morte, a radicalidade do problema humano faz emergir na consciência a aspiração que o habita: realizar-se infinitamente. «Queria era sentir-me ligado a um destino extra-biológico, a uma vida que não acabasse com a última pancada do coração»(Miguel Torga).
A partir da morte pode reconhecer-se, também, a impotência do homem para construir sozinho a sua realização. «O homem é um animal compartilhante. Necessita de sentir as pancadas do coração sincronizadas com as doutros corações, mesmo que sejam corações oceânicos, insensíveis a mágoas de gente. Embora oco de sentido, o rufar dos tambores ajuda a caminhar. Era um parceiro de vida que eu precisava agora, oco tambor que fosse, com o qual acertasse o passo da inquietação»(Miguel Torga). É aqui se abrem duas hipóteses: ou o homem reconhece que a vida terrena - projecto e aspiração a ser mais - tem sentido e abre a possibilidade da esperança de um futuro transcendente; ou aceita que a vida não tem sentido e é o desespero total.
A descoberta do sentido para a vida, integrando o sentido da morte, revela a precariedade e a finitude de uma vida sobre a qual assenta o desejo de absoluto que se espera. É a descoberta da liberdade ansiada, aquela que se tem devido a uma liberdade transcendente. O desejo de liberdade infinita do homem dá lugar à descoberta da condição de possibilidade da liberdade humana: Deus. A realização humana surge a partir do ser pessoa, da relação.
Mas o sentido é um dom, oferecido pelo mistério do Verbo encarnado. «Na realidade, o mistério do homem só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente. [...] Cristo, novo Adão, na própria revelação do mistério do Pai e do seu amor, revela o homem a si mesmo e descobre-lhe a vocação sublime»(GS 22). O mistério do homem revela-se através do mistério de Cristo, chamado a participar da sua filiação. Quando o homem descobre que é amado pelo Pai, em Cristo e através do Espírito, revela-se a si mesmo, descobre a grandeza de ser objecto da benignidade divina, receptor do amor do Pai revelado em Cristo. O mistério trinitário é o único capaz de realizar o homem, é o «mistério iluminador» do sentido (René Latourelle). A expressão desse mistério faz-se pela vivência da comunhão, onde o ser «não sem os outros» (Michael de Certaux) impele para a solidariedade e para o diálogo. Miguel Torga escreve que «a Bíblia, o livro dos livros, nos ensina que não há homem sem homem, e que o próprio Cristo teve, a caminho do Calvário, a fortuna dum cireneu para o aliviar do peso da cruz (a dor incurável da solidão). Para mim, pelo menos - continua Torga -, feito dum barro tão frágil e vulnerável, que necessito de ser amado durante a vida e de acalentar a esperança de continuar a sê-lo depois da morte».
Jesus Cristo, através da sua vida e pregação, é o mediador do sentido, o único intérprete dos problemas humanos. Em Cristo, o homem pode compreender, realizar e superar-se continuamente; pode ver, por fim, realizada a sua identidade. O ser insaciado, sacia-se.
Falar do homem é falar de comunicação, já que o ser humano não pode passar sem comunicar; partilhando com o outro as suas intuições, verifica a sua validade. É este exercício que impele o homem para uma vida comunitária.
À teologia cabe o «estudo sobre Deus», de um Deus que quer estar em relação estreita com o homem: por isso, as questões deste devem ser tidas em conta por aquela ciência, em ordem a uma oferta de alternativas válidas, dialogadas com as categorias de pensamento usadas pelo homem contemporâneo.
Deus, numa relação de amor salvífico com o homem, sai do Seu mistério, revelando-Se. O homem, convertendo-se, responde com a fé à verdade transformadora. Por isso, continua a ser tarefa prioritária dizer, hoje, a Revelação.
A Palavra de Deus apresenta-se, no Antigo Testamento, sob muitos aspectos, mas mantém a característica de ser uma palavra que, simultaneamente, revela e esconde: não se deixa reduzir a simples significados verbais. No Novo Testamento, esvai-se a diferença de níveis de comunicação entre Deus e o homem, provenientes das diferentes naturezas. Jesus Cristo possibilita o encontro face-a-face de Deus com o homem, numa comunicação em que o emissor e o receptor se situam nas mesmas coordenadas de espaço e de tempo. Assim, Cristo é o comunicador perfeito, «na medida em que nele encontramos concentrada e realizada a imagem da possibilidade de realização da comunicação ideal» (M. Carnicella), expressão da totalidade, sem lugar para equívocos.
«Sabendo Jesus que chegara a Sua hora de passar deste mundo para o Pai, Ele que amara os Seus que estavam no mundo, levou até ao extremo o Seu amor por Eles»(Jo13 , 1). E o auge da doação: «a palavra articulada faz-se palavra imolada» (René Latourelle). Na Cruz, Jesus Cristo mostra o amor de Deus aos homens; a palavra de Deus esgota-se até ao silêncio. A hora da morte e do silêncio é a suprema expressão do amor oferecido à humanidade. Aquilo que na comunicação divina é incomunicável diz-se agora com os braços estendidos e o corpo dilacerado.
No acontecimento ressurreição - onde a humanidade de Cristo se torna veículo para a expressão e manifestação da Sua divindade -, Cristo ratifica-se como código e como chave interpretativa do código que permite penetrar a mensagem divina sem equívocos.
Face a Cristo, o «comunicador perfeito», subsistem ainda ruídos, provenientes do homem, da sua mesquinhez, do medo e da incapacidade para se interrogar. A comunicação perfeita só se realiza num contexto escatológico, onde o ruído é anulado e o homem entra em comunhão perfeita com Deus, num perpétuo e sempre novo diálogo.
À luz deste acontecimento, a relação entre o homem e Deus é, pois, reflexo do diálogo trinitário, gerador de comunhão amorosa, na qual o homem é chamado a participar. Apesar da dificuldade do cidadão hodierno - fechado sobre si e incapaz de se situar perante o dom -, é preciso continuar a anunciar o Deus que se fez homem e que diviniza a humanidade pela comunicação do seu ser pessoal.
Dizer esta notícia, com honras de primeira página, obriga a descobrir, em conjunto com os vários saberes, outros métodos de comunicar, que integrem a fé e evitem o absurdo. Processo capaz de ser realizado por aqueles que falam como se vissem o invisível, sempre em busca de novos métodos de contar a verdade, marcados sempre pelo imprevisível.
Nesta dinâmica, o cidadão «acabará por sentir, no mais íntimo da sua humanidade, o apelo duma Proposta transcendente, que foi por vezes rejeitada enquanto expressa em paradigmas ultrapassados, mas que surge agora, nova e disponível, para a reinvenção do futuro»(Luís Archer). De um futuro com um Deus tão transcendente que não se deixa reduzir a simples verbalizações que aprisionam, mas tão próximo que chama cada homem, do âmago de uma nova cultura, a uma comunicação libertadora.
A fé, deste modo, não só dialoga com as diversas culturas como é capaz de gerar uma nova cultura.