Quarta-feira, 1 de Fevereiro de 2012

A linguagem analógica: o seu contributo à Teologia


A dimensão do mistério, sempre presente na experiência religiosa, agudiza-se quando tentamos falar sobre ela. Não poucas vezes faltam-nos as palavras para nos expressarmos e transmitirmos as nossas experiências. Perante esta dificuldade, Wittgenstein defende que o que não se pode dizer com clareza deve ficar reduzido ao silêncio. Cairíamos então num ateismo semântico.
Para tentar solucionar esta dificuldade vamos, neste trabalho, lançar mão da analogia e ver o contributo que ela pode dar à Teologia.

I. A METÁFORA
O homem é, por si, um ser sociável. Precisa dos semelhantes para se realizar. Para entrar em contacto com eles usa a linguagem, a fim de comunicar as suas experiências. Mas o universo das experiências "leva-nos à beira do mistério último não susceptível da experiência directa, apenas indirecta 'em, com e sob' a nossa experiência quotidiana. Mas quando tentamos descrever este mistério falta-nos a linguagem. A experiência tem uma última dimensão inefável"[1].
O homem, espontaneamente, relaciona as coisas entre si por imagens, comparações e símbolos. Com estes pretende exprimir as suas experiências e a sua situação no mundo.
A importância da analogia, ou pensamento analógico, vem do facto de se chegar a alguma coisa geral, por indução, a partir de coisas particulares e semelhantes. Na analogia estão presentes a unidade e a pluralidade, a identidade e a diferença. Como se vê possui uma estrutura dialéctica.
A analogia fundamental, em que todas se apoiam, é a analogia entis. A inteligência humana está aberta ao infinito. Na afirmação do particular inquieta-se, pois reconhece nele o infinito. É pela existência do finito que reconhece a existência do infinito, mas nota-se que são de maneira diferente e, ao mesmo tempo, não tão diferentes. Se assim não fosse não poderiam estar presentes no mesmo conhecimento: o conhecimento humano.
"Metamorfizar correctamente é ver - contemplar, ter olhar para - o semelhante. A epífora é este olhar e este lance de génio: o não ensinável, o não adquirível"[2].
"A metáfora é por excelência um tropo por semelhança"[3]. É esta que revela "a estrutura lógica do 'semelhante', porque, no enunciado metafórico, o semelhante é apercebido  apesar da diferença, apesar da contradição"[4]. É esta a estrutura lógica que dá vida à metáfora, que lança "o impulso da imaginação num 'pensar mais' ao nível do conceito"[5], pois "as significações não são fórmulas estáveis mas dotadas de uma capacidade e de um dinamismo, que lhes permitem servir outros referentes e cooperar na inovação semântica"[6].
A metáfora é considerada como uma forma de analogia[7]. E o conhecimento por analogia é um conhecimento "do semelhante pelo semelhante que detecta, utiliza, produz similitudes de maneira a identificar os objectos ou fenómenos que percebe ou concebe"[8].
Para se verificar um pensamento o mais exacto possível deve "haver uma ideia dominante, alguma coisa que corresponda à característica principal do objecto e que dê unidade ao que é vário e disperso"[9].
Em suma, nos conceitos análogos, apesar de existir diferenças, há também um enlace que possibilita o emprego das palavras com sentido e significado[10]. A linguagem analógica ocupa o lugar intermédio entre o equívoco e o unívoco e expressa uma semelhança que inclui a igualdade na diferença. É uma semelhança de relações. "Recorre de um modo novo à dialéctica da quotidiano e do estranho, característica da linguagem metafórica"[11].


II. A LINGUAGEM PARABÓLICA
De entre os problemas que hoje se põe à fé, a linguagem ocupa um papel de destaque. Quando nos exprimimos sobre esta corremos o risco de não sermos compreendidos - há algo que não funciona[12].
Para falarmos acerca da transcendência apenas nos podemos apoiar naquilo que lhe é secundário e subsequente[13]. Com a linguagem parabólica dá-se um contributo importante para que a experiência religiosa não fique sem voz. Esta permite que as palavras sejam utilizadas de uma nova maneira, que expressem algo de diferente. Não reproduzem apenas o objecto mas, acima de tudo, representam uma descrição criadora da realidade. Dão algo mais à realidade física que esta não possui[14]. Diz do mundo físico mais do que aquilo que é.
Se por um lado a experiência religiosa ultrapassa a pura inteligência e compromete a vontade, por outro é razoável. "A racionalidade verdadeira não reprime a analogia, alimenta-se dela ao mesmo tempo que a controla"[15].
Visto que Deus não é uma coisa do nosso mundo, em face de um termo estrangeiro, poderiamos dizer que este perdeu o significado. Mas não, na linguagem parabólica as palavras são elevadas[16].  Isto porque as palavras humanas e as divinas, da revelação, se fundem. Sem que as divinas deixem de o ser e as humanas percam o seu significado.
Se observarmos os resultados da filosofia da linguagem  e tomarmos a sério a força criadora da linguagem, "que não se limita a reproduzir a realidade da nossa experiência quotidiana e científica, mas que projecta o conjunto da realidade e a dimensão religiosa e a partir daí é capaz de chegar, mediante as metáforas, a uma nova realidade criadora e a expressar o novo, então encontramos a doutrina da analogia, que vem a ser a doutrina da linguagem da fé"[17].
Com isto não negamos a transcendência de Deus. Pois a linguagem sobre Ele deve ser capaz de mostrar ao mesmo tempo a distância e a proximidade - "aproxima Deus por via  analógica e, ao mesmo tempo, também criam distâncias. Entre Deus e o homem existe um abismo que o próprio Deus transcende ao dar, justamente com as imagens, a Sua presença"[18]. Deus é o totalmente outro.
A doutrina da analogia nasceu da ambição de abraçar numa única doutrina a relação horizontal das categorias com a substância  e a relação vertical das coisas criadas com o Criador[19]. A analogia, com efeito, "move-se ao nível dos nomes e dos predicados; ela é de ordem conceptual. Mas a sua condição de possibilidade está noutro lugar, na própria comunicação do ser. A participação é o nome genérico dado ao conjunto das soluções trazidas a este problema. Participar é, de um modo aproximativo, ter parcialmente o que o outro possui ou é plenamente"[20]. Ricouer acrescenta mais à frente: "no jogo do Dizer e do Ser, quando o próprio Dizer está a ponto de sucumbir ao silêncio, sob o peso da heterogeneidade do ser e dos seres, o próprio Ser relança o Dizer, em virtude das continuidades subterrâneas que conferem ao dizer uma extensão analógica das suas significações. Mas, no mesmo lance, analogia e participação são colocadas numa relação de espelho, correspondendo-se exactamente unidade conceptual e unidade real"[21].
Em resumo, podemos ver que a metáfora dá algo mais à linguagem que a realidade física não possui. Nomeadamente na experiência religiosa. Assim a palavra Deus "expressa a realidade de tal modo que faz brilhar no mundo 'algo' que é mais que o mundo"[22]. A linguagem sobre Deus converte o mundo em metáfora de Deus. É um chamamento a contemplar "o mundo como metáfora e as suas indicações, ou seja, a mudar o modo de pensar, crer e esperar"[23]. A analogia faz ver outro Mundo, outro Espaço e outra Vida[24]. 

III. A analogia hoje
Neste capítulo vamos abordar a questão da analogia baseada partindo da filosofia moderna.
É possível uma mudança profunda na doutrina da analogia se partirmos de um ponto diferente: a metafísica grega partiu do cosmos, nós vamos partir da filosofia da liberdade. "A questão de Deus não se decide na problemática da natureza, mas no debate em torno da liberdade do homem"[25].
A analogia constitui uma interpretação das experiências realizadas livremente. "A liberdade move-se em tensão entre o infinito e o finito, entre o absoluto e o relativo. Nós podemos distanciarmo-nos, no acto de liberdade, da experiência finita e condicionada, e concebe-la como tal porque nos projectamos até ao infinito e incondicionado"[26].
Nós só concebemos o finito, como finito, dentro de um horizonte infinito. Só no incondicionado concebemos o condicionado como tal. Todo o finito nos projecta para o infinito[27].
"Esta estrutura antecipativa da liberdade e da razão humana implica um conhecimento latente do incondicionado e o infinito, que se classifica como análogo"[28].
Tendo em conta que "a analogia do ser expressa o mais e o novo da liberdade frente à mera facticidade do mundo. Ela ilumina-nos para ver o mundo no horizonte da liberdade e entende-lo como âmbito da liberdade; ou seja, ajuda-nos a conceber o mundo como mundo histórico"[29]. Com esta visão da analogia podemos ver as várias possibilidades do real: o futuro. "Por isso uma doutrina da analogia assim renovada pode-se considerar como versão especulativa da forma linguística da metáfora e da linguagem figurada dos evangelhos"[30].
Se Deus for concebido como liberdade absoluta, em quem fazemos incidir a nossa liberdade finita e vemos o mundo como âmbito da liberdade, "não há possibilidade nenhuma de demonstrar Deus como necessário a nível conceitual. Deus como liberdade perfeita é mais que necessário; por ser livre, só pode ser conhecido em liberdade quando ele se abre livremente ao homem"[31].
Ao tentar conhecer Deus no horizonte da liberdade não estamos a especular abstractamente sobre Deus. Estamos, isso sim, a atender aos sinais que Deus revelou livremente no mundo e, à luz destes, conceber a realidade como espaço de liberdade e de história[32].
A doutrina da analogia permite-nos, a partir do testemunho bíblico, abrirmo-nos a uma nova realidade. Dá-nos uma linguagem que permite ao homem falar sobre Deus[33].
"Neste sentido, a analogia fidei implica a analogia entis ou da liberdade"[34]. Pois o possível é o melhor que o ser tem para dar.


Conclusão
além dos conceitos unívocos e equívocos, existem os análogos. São estes que permitem à linguagem expressar-se sobre o que é diferente da nossa realidade física.
Assim, a linguagem analógica dá à linguagem mais do que a realidade física possui. Permite ver no mundo mais do que ele é: converte-o em metáfora de Deus.
O homem sente em si o conflito do querer e aspirar ao mais, em conflito com a realidade que possui. Vê que o que o rodeia pode ser diferente. Mas a esta diferença encontra-a na liberdade.
Só na liberdade se encontra Aquele que se revelou livremente.

 Luís Miguel FIGUEIREDO RODRIGUES



[1]Walter KASPER,  El Dios de Jesucristo, "Verdad e Imagen" 89, Ed. Sígueme, Salamanca 19944, 110-111.

[2] P. RICOEUR, A Metáfora Viva, Ed. Rés, Porto 1983, 291-292.

[3] Idem, 260; Cf  92.

[4] Idem, 293- 294.

[5] Miguel BAPTISTA PEREIRA, Introdução à tradução portuguesa da Metáfora Viva de Paul Ricoeur, in P. RICOEUR, o.c., 37.

[6] Ibidem.

[7] Cf W. KASPER, o.c., 119.

[8] Edgar MORIN, O Método III. 3. O conhecimento do conhecimento/ 1, "Biblioteca Universitária" 44, Pub. Europa-América, Mem Martins 1987, 131.

[9] J. MENDES, Teoria Literária, Ed. Verbo, Lisboa 1980, 123.

[10] Cf  O. MUCH,  Doctrina filosofica de Dios, "Biblioteca de Teologia" 6, Ed. Herder, Barcelona 1986, 176; O. de la Brosse, Analogia, in A.-M. Henry. ph. rouillard (dir), Dictionnaire de la foi chrétienne, I, Ed. du Cerf, Paris 1968, 254.

[11] W. KASPER, o.c., 119; Cf 117.

[12] J. DANIÉLOU, Lenguage e fe, in AAVV, La fe hoy, "Biblioteca palavra"2 ed. Palabra, Madrid 1969, 141.

[13] Karl RAHNER, Curso fundamental da fé. Introdução ao conceito de cristianismo, Ed. Paulinas, S. Paulo 1986, 91.

[14] W. KASPER, o.c., 117.

[15] E. MORIN,  o.c., 133.

[16] J.-P. MANIGNE, Pour une poétique de la foi. Essai sur le mystère symbolique, "Cogitatio Fidei"43, Ed. du Cerf, Paris 1969, 120.

[17] W. KASPER,  o.c., 118.

[18] J. VLOET, O Símbolo e a nossa linguagem acerca de Deus, in "Communio"(Lisboa) 1(1989)6, 500.(499-508); Cf G. LAFONT, Analogie, in R. Latourelle - R. Fisichela Dictionnaire de Théologie Fondamentale, ed. du Cerf, Paris 1992, 10.

[19] Cf P. RICOUER,  o.c., 411-412. É o que se chama a onto-teologia.

[20] Ibidem, 414.

[21] Ibidem, 420-421.

[22] W. KASPER, o.c., 117; Cf Maria C. D. CARVALHO, Centralidade Cristológica do "Eschaton". nos escritos de Hans Urs von Balthasar, "Biblioteca Humanística e Teológica" 6, ed. UCP / Fundação Eng. António de Almeida. Porto 1993, 133.

[23] W. KASPER, o.c., 118.

[24] Cf Manuel ANTUNES, Legómena. Ed. INCM, Lisboa 1987, 140-141.

[25] W. KASPER, o.c., 41; Cf J.L. LUCAS, Dios, horizonte del hombre, "Sapientia Fidei"3, ed. BAC, Madrid 1994.

[26] Ibidem, 123.

[27] Cf Supra p.?!??

[28] W. KASPER, o.c., 123.

[29] Ibidem, 123.

[30] Ibidem, 124.

[31] Ibidem, 124; Cf J.-P. MANIGNE, o.c., 121.

[32] Cf Ibidem, 124.

[33] A palavra Deus tem sentido.

[34] W. KASPER, o.c., 124.

Terça-feira, 31 de Janeiro de 2012

S. João Bosco, visto por um Salesiano


Neste dia 31 de janeiro, dia litúrgico de S. João Bosco, 124 anos após a sua morte, quero fazer um convite aos meus amigos que se interessam por pastoral juvenil: ler as “Memórias do Oratório”, de S. João Bosco. 
Dom Bosco escreveu muito, sobre muitas coisas. Mas escreveu pouco sobre si mesmo. Ao contrário de alguns santos com uma extraordinária capacidade de pôr em palavras o seu mundo interior, D. Bosco era muito reservado e não era nada dado a disclosures. Por isso, este texto, em que D. Bosco narra a sua própria história torna-se um documento raro e precioso. 
Nestas “Memórias”, D. Bosco narra a sua história e a história da sua obra, de 1815 (ano em que nasceu) até 1855. Escritas com arte, com ritmo, é um texto que se devora rapidamente. Mas mais do que fazer uma biografia, Dom Bosco quer apresentar um projecto de pastoral juvenil. Narrando as suas vivências como jovem e como sacerdote que exerce o seu ministério no âmbito da pastoral juvenil, Dom Bosco encontra uma maneira ágil e atraente de sintetizar a sua proposta pastoral.
D. Bosco acaba por escrever este relato por pressão do Papa Pio IX. Mas também porque sente que estas “Memórias” poderão ser úteis para aqueles que se juntaram a ele na paixão educativa e evangelizadora (ou seja, para nós também).
Para os conhecedores de Dom Bosco é texto é interessantíssimo. Mas julgo que para todos aqueles que querem anunciar o Evangelho da vida aos jovens do século XXI, este texto, escrito no século XIX, pode ser bastante estimulante.
A edição que agora saiu foi preparada por Aldo Giraudo, um dos maiores especialistas sobre vivos sobre Dom Bosco. A ampla introdução ajuda-nos a compreender melhor o género literário da obra; as notas generosas ajudam-nos a conhecer o mundo político, social, eclesial, ideológico onde decorre a acção.
Contextos
Apesar da distância que nos separa da Turim da primeira metade do século XIX, há muitas semelhanças no contexto.
Temos uma juventude em mutação acelerada e em situação de emergência educativa. No século XIX era o impacto da industrialização e da urbanização. Hoje é o choque com a cultura pós-moderna.
E temos também uma Igreja sem grandes respostas. Hoje como ontem, sentimos em Igreja que temos no Evangelho a resposta que pode devolver vida, beleza e sentido à vida dos jovens. Mas sentimos também que não encontrámos ainda as mediações necessárias e suficientes que façam a ponte entre o Evangelho e os jovens.
As respostas
Ao ler as “Memórias do Oratório” é possível encontrar várias respostas aos desafios pastorais que foram válidos na vida de Dom Bosco e que são válidos hoje também.
O sentido vocacional do educador-evangelizador. Ser educador-evangelizador (para Dom Bosco a evangelização faz-se com a educação) não é um emprego, não é um acidente de carreira. Nem sequer é uma escolha pessoal. Cada um de nós está neste lugar eclesial por chamamento de Deus. Isso gera um sentido de grande responsabilidade. Mas também uma serenidade interior muito grande. Nesta aventura de evangelizar os jovens, não somos nós os protagonistas. O papel principal é de Deus. Foi Ele que nos chamou. É Ele que nos guia, que nos inspira, que nos dá coragem.
A compaixão. Hoje como ontem a maneira como olhamos para o mundo dos jovens não é neutro. Olhamos com o mesmo olhar de Deus. Não somos burocratas que de dedicam a fazer análises da realidade, com os mais modernos instrumentos estatísticos. Somos pais e mães apaixonados que sentem como suas as dores do mundo juvenil. Somos homens e mulheres de fé que se deixaram contagiar pela vontade de vida abundante que Deus tem.
Não se deixar prender pela inércia eclesial. No tempo de D. Bosco, a rápida urbanização, os fluxos migratórios, a explosão de ideias, não pediu licença às estruturas eclesiais existentes. E D. Bosco soube encontrar soluções criativas e inovadoras para levar o Evangelho aos jovens. Hoje também nós temos a dificuldade de estar numa Igreja que pena em encontrar novos lugares e novos ritmos para evangelizar os jovens. As “memórias” ajudam-nos a ver como D. Bosco articula continuidade e inovação, sentido eclesial coragem criativa.
Humildade. A humildade corre o risco de ser uma daquelas virtudes típicas do “antigamente” mas que hoje, em tempos obcecados com a auto-realização individualista pouco crédito tem. D. Bosco realça, no seu percurso o papel da humildade. Longe de nós imaginá-lo como um quietista espiritual ou como alguém submisso ao peso das instituições ou das situações. D. Bosco insiste na humildade como a atitude que permite a descentração. “Ser humilde” é liberdade interior, não se prender consigo mesmo. É esta humildade que permite a criatividade, que permite desenvolver movas respostas. Sem perder tempo a ponderar o impacto que essas “aventuras” terão no bem-estar pessoal.
A santidade é possível. Contra os restos de jansenismo que ainda havia no seu tempo, contra o desânimo que dizia nada ser possível fazer desta juventude, D. Bosco acredita que a santidade, uma vivência da fé de alta qualidade, é possível. É urgente, na pastoral juvenil de hoje, recuperar esta convicção. Não apenas como declaração de princípio. Há que observar como se pode ajudar os jovens a operacionalizar essa santidade. Nas “Memórias”, D. Bosco recorda todos aqueles que o ajudaram a crescer em santidade e explicita os processos espirituais e pedagógicos que ajudarão os jovens rumo à santidade.
Itinerários que fazem crescer. Nas “Memórias” recordamos algo que a experiência confirma de mil maneiras: precisamos de itinerários de fé que façam efectivamente crescer. D. Bosco não usa a expressão “itinerários de fé”. Mas a intuição está lá.
Empowerement. Quando Joãozinho Bosco relata à família o sonho que teve aos nove anos (que de algum modo antecipa-sintetiza todo o seu percurso de vida) a avó, com sensatez e realismo, diz que não se deve dar crédito aos sonhos. Mas a vida de D. Bosco foi toda ela uma luta contra o realismo imobilista. Ele sentia que as constrições da realidade não deveriam ter a última palavra. D. Bosco desconhecia a expressão “empowerement” (duvido que soubesse inglês) mas era um grande adepto da realidade. Na sua vida pessoal e na sua estratégia de “gestão” dos jovens e dos colaboradores. D. Bosco ensina-nos que a fragilidade dos recursos pode ser contrariada cultivando a formação pessoal, melhorando as competências.
Finalmente…
Já escrevi muito e ainda fica muito por dizer a respeito dos méritos deste livro. Insisto no convite: ganha tempo a recuperar esta memória de um grande santo. 


P.e Rui Alberto, SDB

Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2012

História do sr.jota


1
O sr.jota sempre foi um senhor de amor e amores.
Amar era o seu caminho, os amores as suas paragens.
Vivia para amar e amou muito, vezes sem conta e modo.
Gostava de amar e sempre que amava de maneira diferente, o seu amor ganhava um nome.
Não o nome da amada mas o nome da forma, da forma como e porquê amava...
Ao amor assolapado e imediato no qual dizia "vem rápido" chamou urgente.
Aquele amor que pedia para ficar e encostar apelidou de prioritário.
Ao outro, feito de admiração que aguentava a distância e de quando em vez o flirt dedicou-lhe a palavra platónico.
Ao amor que perdurava mesmo sem lugar ou tempo chamou independente...
Aquele que chegou e foi, nomeou-o de fugaz e àquele que idealizava nos seus sonhos, chamou isso mesmo: ideal.
E a todos os outros seus amores chamou um nome, um nome que os tornou ainda mais únicos e especiais.
De tal forma que, ainda hoje, o sr.jota trata-os pelos nomes... E nos seus nomes, reencontra o rosto das suas amadas.
O sr.jota foi feito para amar e ergueu-se amando.
Mas, no meio de tanto, sorriu quando se interrogou: alguma vez terá sido amado?...
Esperançado, retrocedeu no seu caminho, a correr loucamente à procura da alegria perdida de ser amado.
Ainda hoje não parou...

2
E correu, correu muito e loucamente.
Por montes e vales, cidades e aldeias, reencontrando as suas amadas, nunca se reencontrando.
A sofreguidão do regresso ofuscava o alento para discernir.
Continuou a correr, cada vez mais e com menos forças.
Até que parou.
Num pequeno banco perdido na sombra da árvore, repousou.
Fechou os olhos para mais tarde reabrir fruto de um raio de sol intenso.
Ergueu-se e percebeu: de tanto andar tinha regressado ao lugar donde tinha partido.
E sem saber se era o fim da sua corrida ou o princípio de um novo caminho, voltou a fechar os olhos.
E a sorrir para o raio de sol que o aquecia.

3
Enebriado pelo calor do raio de sol, reabriu os olhos tempo longo mais tarde.
Observou ao seu redor como um forasteiro chegado à cidade nova.
Tudo parecia novo, estranhamente novo, mesmo aquilo que tratava pelo nome.
Afinal reconhecia não conhecer o lugar de onde tinha partido.
E como o forasteiro na cidade nova, vagueou, deambulou à procura não sabe do quê, porquê e para quê.
Não buscava comida nem guarida, tão pouco companhia.
Apenas errava pela cidade... Até voltar ao banco perdido na sombra da árvore.
E naquele momento percebeu que tinha chegado a hora. De recomeçar.

4
Recomeçar experimentando uma certeza: tudo é impossível, nada é possível.
Invadia-o contradição acesa: sabia que não podia ficar, tinha que partir. Simplesmente a vontade não acompanhava a obrigação.
Por isso, foi ficando até não mais resistir.
Não se vive parado, tão pouco se sobrevive.
Vive-se caminhando, sobrevive-se por conta e risco.
E tendo-se muito em conta mas receio dos riscos que recomeçar acarreta...partiu!
Procurou firmeza no passo, não experimentou olhar para trás.
O tempo que passa serve para ensinar e não para chorar.

5
Partiu julgando-se livre do passado, livre para o futuro.
Esqueceu-se que o futuro não se ergue sem História, que a memória não se apaga por vontade.
E ao caminhar, cedo percebeu que tudo conhecia, tudo nomeava.
Apenas uma diferença: o sentimento divergia do conhecimento.
E os lugares, as pessoas foram-se renovando aos seus olhos, no seu coração...

6
Do lugar onde nasceu viu apenas uma cidade.
Sem afecto e estórias.
Da família herdada encontro-a pequena.
Sem a família escolhida, os amigos.
Do trabalho entendo-o como obrigação.
Algo que se faz sem sorriso.
E de tudo concluiu que o conhecimento renova-se, a memória também.
Logo perguntou: porquê tudo aparentar sem sentido?
A resposta não tardou.
Não basta saber ou recordar quando falta a emoção.

7
A emoção não se conquista, simplesmente existe.
A emoção não enriquece, simplesmente diferencia.
E ajuda a distinguir e escolher.
Na sua mente clarificou-se o pensamento.
O seu caminho, o novo caminho, não faria sentido sem emoção.
Parou imobilizando o passo e preferiu sentar.
Sentar para pensar.
E com o passar do tempo, simplesmente esperar que a emoção chegasse.
Agora uma certeza tinha.
A emoção é como o ar: não se vê, não se ouve, não se toca mas não se vive sem ela.

8
Sabia:
O conhecimento ajuda, a memória ensina.
A emoção singulariza. E une todas as partes do todo.
Permaneceu sentado à espera. Da chegada da emoção.
Que tardava, que tardou…
A emoção não chega por decreto. Apenas por sentimento.
E ninguém controla os sentimentos.
De tanto tardar, os dias foram passando.
Dia e noite, luz e sombra.
Mutações ora subtis ora bruscas. Nuances ou rupturas.
Mar de coisas nunca valorizadas, nunca reparadas.
E, na espera, foi percebendo:
Afinal o caminho não passa de um modo de ver…
Que se afunila com o tempo e com o medo.
Que nos faz perder o Bem que nos visita e não chega a entrar.

9
Sentado, esperava pela emoção.
Tardou a perceber que chovia.
Pequenas gotas frescas e transparentes.
Sentiu-se bem.
E relembrou do quanto gostava da chuva para caminhar.
E do vento a bater no rosto enregelado que fixava o sorriso.
E da sensação livre de caminhar sem destino ou tempo. Apenas prazer.
E de pensar livremente nos seus momentos únicos de isolamento.
E de sonhar fantasiosamente quando a dura realidade pedia alguma magia.
E relembrou tanto prazer anónimo experimentado.
Nem sempre valorizado!

10
Rebobinou toda a sua vida.
Pelo menos aquela que a mente alcança e suporta.
E reviveu fugazmente tantos destes momentos desvalorizados.
Envolto nos amores e Amor vividos, percebeu que não percebeu…
… O quanto feliz poderia ter sido.
Preocupado com os outros, esqueceu-se de si próprio.
E constatou.
Viver intensamente os momentos que são nossos não é egoísmo.
É também uma forma de ser feliz.

11
Reavivou a exigência (quem sabe) dialéctica dos seus amores.
Estes exigiam tempo e atenção. O centro do mundo.
Ele exigia-se capaz de todas as respostas. O suporte do mundo.
Para conquistar um sorriso, abdicou…
Para alcançar um carinho, dedicou-se…
Para não entristecer, recuou…
Para não magoar, aventurou-se…
Na certeza que só assim seria amado.
De tanto querer, julgou muito ter conquistado, tornado único e insubstituível.
Esqueceu-se da evidência.
Não se gosta verdadeiramente por aquilo que damos. Simplesmente por aquilo que somos.

12
Repetiu a pergunta “será que alguma vez fui amado?”
E voltou a repetir.
Fazendo desfilar na sua mente imagens atrás de imagens dos momentos vividos.
Até que parou quando, de olhos fixados no chão que pisa, encontrou uma simples folha branca.
Com uma frase escrita.
Nunca seremos amados se não nos amarmos a nós próprios.
E o amor próprio obriga-nos a ser quem somos.
Por inteiro!
E nunca o que querem que sejamos.
O primeiro é próprio de uma pessoa.
O segundo não passa de uma imagem.
Que se apaga quando a solidão chega.
E quando já não sabemos conviver com quem nos acompanha inevitavelmente:
Nós próprios!

13
Resgatou o papel do chão e dobrou-o.
Dobrou-o cuidadosamente para guardar no bolso do casaco.
Para reler sempre que quisesse.
E com medo.
Medo que a memória fosse curta. E se perdesse no primeiro amor encontrado.
Guardou.
E sentiu-se mais confortável. E robustecido.
Mas ainda sem vontade e forças para retomar caminho.

14
Sentia-se apatriado. Sem pátria ou destino.
Não porque faltasse caminho físico.
Esse estava ali, à sua frente.
Era só levantar e caminhar.
Mas porque ainda faltava a emoção, o condutor do coração.
Interrogou-se: o que fazer para chamar a emoção?
Sorrir? Saltar? Gritar? Suplicar?
Pensou horas a fio, tempo atrás de tempo.
Nada mais conseguiu do que uma simples evidência:
A emoção é o resultado da nossa aceitação.
Assim como somos!
E aceitou.

15
E ao aceitar, verificou que não tinha que partir.
Mas sim voltar a partir. Ou repartir.
E sorriu.
Porque repartir também é partilhar.
Dividir por todos oferecendo o bom que temos sem contas ou condições.
E emocionou-se.
Porque se sentiu capaz de dar, com vontade de dar, com talento para dar…
Chorou.
E as suas lágrimas fizeram uma pequena poça de água aos seus pés.
Olhou e viu-se reflectido.
E gostou do que viu. Assim, despido e sem truques.
Descobriu-se a si próprio.
E sorriu.
Sentiu-se bem e fortalecido.

16
Tão fortalecido que se levantou.
Com determinação e vontade.
Sobreviver é obrigatório.
Garantir que o corpo não dorme e a memória não se apaga.
Afinal, o que tinha feito.
Viver é necessário.
Alimentar o corpo, enriquecer o espírito.
O que descobria agora.
Conviver é felicidade.
Partilhar a vida com todos e consigo mesmo.
O que desejou ardentemente.
E sentiu-se firme. E emocionado.
E impelido. A voltar a partir.
Rasgou um sorriso.
E simplesmente retomou o seu caminho!

Fi